Petros Giannakouris/AP
Petros Giannakouris/AP

Turquia declara estado de emergência por 3 meses

Decisão foi anunciada pelo presidente Erdogan, que disse que o objetivo é 'enfrentar as correntes golpistas no país' e 'combater a ameaça à democracia'; mais cedo, governo havia indiciado 99 generais e almirantes

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S. Paulo

20 Julho 2016 | 15h44

Alegando que está sob a ameaça de um segundo golpe, o governo do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, decretou nesta quarta-feira, 20, estado de exceção por três meses. A medida se segue à ampliação da perseguição a simpatizantes da quartelada da semana passada comandada por setores do Exército. 

A decisão foi anunciada pelo próprio Erdogan, que afirmou que a medida servirá para proteger os valores democráticos. O gesto, que precisa ter aprovação do Legislativo, dá poderes ao presidente para adotar medidas de segurança por três meses sem ter de passar pelo crivo do Parlamento. 

A medida aumenta os temores de ONU, UE e potências ocidentais de que Erdogan esteja usando o golpe frustrado para minar o estado de direito e enfraquecer qualquer tipo de oposição.

Até ontem, a Justiça turca havia indiciado 99 generais e almirantes e ampliado a repressão contra opositores dentro do aparato do Estado. Outros 50 mil funcionários públicos perderam o emprego.

Ancara ainda fechou mais de 20 sites de notícias, bloqueou a página do WikiLeaks, retirou credenciais de pelo menos 34 jornalistas estrangeiros e passou a impedir que acadêmicos deixem o país para dar palestras no exterior.

O último alvo de Erdogan foi o setor de educação. Cerca de 1,5 mil reitores de universidades foram demitidos, além de 21 mil professores e 15 mil funcionários do ministério. A suspeita de Erdogan é de que essas pessoas sejam discípulas de Fethullah Gulen, seu opositor exilado nos EUA, que nega qualquer envolvimento com a tentativa de golpe. 

Dentro do governo, as medidas estão sendo justificadas em razão de supostas informações recebidas que indicam que um segundo golpe poderia estar sendo preparado. Nenhum detalhe foi dado sobre essa ameaça. 

Para grupos como a Anistia Internacional, o expurgo tem levado a censura e violações. “Estamos presenciando uma repressão de proporções extraordinárias neste momento. Ainda que seja legítimo que o governo queira investigar e punir a tentativa de golpe, ele precisa respeitar a liberdade de expressão e o estado de direito”, alertou o grupo. 

No setor da educação, a estratégia é anular qualquer apoio a Gulen. Os reitores de todas as universidades ainda receberam ordens para avaliar a situação de todos os professores e fazer um relatório final até o dia 5. “Estamos vivendo um momento de terror”, disse ao Estado um dos professores da Universidade de Ancara, na condição de anonimato. 

Todos aqueles acadêmicos no exterior são obrigados a voltar e nenhum deles deve aceitar convites para palestras fora do país. A meta, segundo diplomatas, é evitar que acadêmicos que tenham apoiado o golpe usem viagens para fugir. 

Censura. A ofensiva de Erdogan ainda atingiu a internet. No total, cerca de 20 sites de noticias saíram do ar. Ancara também bloqueou o acesso à página do WikiLeaks, logo depois que o grupo anunciou o vazamento de cerca de 300 mil e-mails internos do partido do presidente, o AKP. 

Os documentos se referem ao período entre 2000 e 2016 e o WikiLeaks planejava soltar as informações no segundo semestre. No entanto, diante da tentativa de golpe, a publicação foi antecipada para a terça-feira. Alguns documentos mostram cartas de famílias se queixando a Erdogan de sofrimento por conta de sua gestão. Muitos dos e-mails, porém, se referiam a uma estratégia contra Fethullah Gulen. 

Hoje, 34 jornalistas estrangeiros tiveram suas credenciais retiradas para trabalhar na Turquia, enquanto a rede estatal TRT viu 370 funcionários serem afastados. Pelo menos um chefe de redação que investigou a ligação entre Erdogan e o Estado Islâmico foi preso e 20 outros veículos tiveram suas licenças revogadas. 

Na máquina do Estado turco, mais de 200 pessoas foram demitidas do escritório do primeiro-ministro. Além disso, mais de 9 mil pessoas ainda estão presas em todo o país. 

 

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