AFP PHOTO / OZAN KOSE
AFP PHOTO / OZAN KOSE

Turquia ameaça anular acordo migratório com União Europeia

Ministro das Relações Exteriores turco acusou o bloco de não ter autorizado, como estava previsto, a liberação de vistos para cidadãos turcos

O Estado de S.Paulo

16 de março de 2017 | 10h19

ISTAMBUL, TURQUIA - A Turquia ameaçou na quarta-feira anular unilateralmente o acordo migratório de março de 2016 com a União Europeia (UE), que permitiu reduzir de forma considerável o fluxo de imigrantes e refugiados na Europa, em meio às tensões com vários países do bloco.

"Podemos acabar (com o acordo) unilateralmente. Ainda não informamos nosso interlocutores (europeus), tudo está nas nossas mãos", declarou o ministro turco das Relações Exteriores, Mevlüt Cavusoglu, ao canal 24 TV. "A partir de agora, podemos dizer 'não vamos mais aplicar o acordo e está acabado'", acrescentou.

O ministro acusou a UE de não ter autorizado, como previsto no pacto, a liberação de vistos para cidadãos turcos.

O acordo - concluído em plena crise migratória -, que prevê o reenvio sistemático de todos os imigrantes para a Turquia, permitiu reduzir drasticamente o número de chegadas à Grécia. Este foi o último capítulo de uma crise entre a Turquia e a UE, iniciada depois que Alemanha e Holanda não permitiram na semana passada que ministros turcos participassem em seus territórios de comícios em favor do referendo que dará mais poderes ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan.

Ainda na quarta-feira, Erdogan voltou a atacar a Europa, onde, segundo ele, "o espírito do fascismo está desenfreado", e acusou diretamente a Holanda de ser responsável pelo massacre de Srebrenica.

A crise diplomática se estendeu às redes sociais. Várias contas do Twitter certificadas, entre elas as da Anistia Internacional, BBC e do Ministério da Economia da França, foram atacadas por hackers com mensagens em turco comparando a Holanda e a Alemanha ao regime nazista.

O Twitter confirmou ter sofrido um ataque de grande proporções. "A Holanda não tem nada a ver com civilização, nem com o mundo moderno, foram eles que massacraram mais de 8 mil bósnios muçulmanos na Bósnia-Herzegovina, durante o massacre de Srebrenica" em 1995, acusou Erdogan em um discurso.

Srebrenica era um enclave sob proteção dos capacetes azuis holandeses da ONU. Em julho de 1995, durante o conflito iugoslavo, as forças sérvias da Bósnia mataram homens e meninos muçulmanos, na pior matança cometida na Europa desde a 2.ª Guerra.

Uma história que continua a atormentar a Holanda, onde uma investigação provocou a renúncia do governo em 2002 e onde, em setembro de 2013, depois de um veredicto de um tribunal holandês, o país se transformou no primeiro Estado do mundo considerado responsável pelos atos de seus soldados sob mandato da ONU.

Veja abaixo: Mídia alternativa emerge na Turquia

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, considerou na terça-feira como uma "falsificação nauseante da História" as críticas em relação à Srebrenica.

O conflito diplomático começou no sábado, quando a Holanda decidiu anular os comícios turcos em favor de um referendo, que será realizado no dia 16 de abril, sobre uma reforma constitucional que concede maiores poderes à figura presidencial. Para obter maior apoio na consulta, os ministros turcos planejaram viagens por toda a Europa para incentivar os eleitores turcos em outros países.

Em seu discurso, Erdogan também declarou, em alusão aos nazistas, que "os judeus foram tratados da mesma maneira no passado".

Neste contexto, a Turquia suspendeu as relações de alto nível com a Holanda e bloqueou a entrada do embaixador holandês no país.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, disse estar escandalizado com as declarações da Turquia comparando alguns países europeus, como Holanda e Alemanha, ao regime nazista de Adolf Hitler. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.