Khalil Ashawi/Reuters
Khalil Ashawi/Reuters

Turquia avança em cidade estratégica dominada por curdos na Síria

Alemanha e EUA anunciaram sanções econômicas contra o governo de Erdogan; mais de 100 pessoas morreram e 100 mil se deslocaram desde quarta-feira

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2019 | 13h32

AKCAKALE, TURQUIA – As tropas da Turquia invadiram na manhã deste sábado, 12, a cidade fronteiriça síria de Ras al-Ain, região estratégica comandada pelas forças curdas, que virou alvo de bombardeios turcos desde quarta-feira, quando os Estados Unidos anunciaram a retirada de tropas americanas do nordeste da Síria.

O ministro da Defesa da Turquia anunciou que suas tropas passaram a comandar parte da cidade. Caso consigam dominá-la por completo, as forças turcas passarão a controlar uma das duas principais estradas que conectam a maioria das cidades sob comando curdo, assim dificultando a movimentação de tropas e mantimentos curdos.

Apesar do anúncio e de imagens da TV turca que mostram membros de uma milícia síria sendo comandada pelos turcos, nas ruas praticamente abandonadas de Ras al-Ain, as forças curdas afirmaram que ainda estão presentes em outros pontos da cidade. As tropas turcas e seus aliados árabes trabalham também para tomar uma segunda cidade estratégia na Síria, Tel Abyad, 120 km ao oeste.

A Turquia foi alvo de novas represálias de aliados neste sábado. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Mass, anunciou que o País iria parar de vender armamentos que poderiam ser utilizados pelos turcos no combate contra as tropas curdas na Síria, sem especificar quantidades ou tipo.

"No contexto da ofensiva militar turca no nordeste da Síria, o governo não entregará nenhuma nova permissão [de venda] para todos os equipamentos militares que possam ser usados pela Turquia na Síria", disse Mass.

Na sexta-feira, o governo de Donald Trump já havia anunciado que o Tesouro americano teria a permissão para aplicar novas sanções econômicas à Turquia “quando necessário”, que poderiam “acabar com a economia turca”.

As rusgas entre o governo Trump e do presidente turco Recep Tayyip Erdogan se intensificaram após o Pentágono ter afirmado na sexta que tropas americanas que não foram retiradas da Síria, e que se opuseram ao avanço turco, desviaram por pouco de ataques vindos da Turquia na cidade de Kobani, dominada pelos curdos.

O ministro da Defesa da Turquia confirmou o episódio, mas ressaltou que suas tropas tinham como alvo os combatentes curdos.

Mais de 100 mil deslocados

O conflito na região já levou ao deslocamento interno de ao menos 100 mil pessoas do nordeste para o sul da Síria, de acordo com estimativas da ONU.

A cidade turca de Ceylanpinar, fronteiriça com a Síria, foi esvaziada ainda na sexta, após a morte de ao menos dois civis vítimas de ataques curdos. Ao menos 15 pessoas morreram em cidades na Turquia próximas à fronteira com a Síria.

Do lado sírio, ao menos 14 civis morreram nos territórios curdos, e 60 ficaram feridos desde quarta-feira, de acordo com a organização Crescente Vermelho Curdo.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos calcula a morte de mais de 50 combatentes curdos e 40 militares turcos. A organização afirma que mais 10 civis morreram na Síria somente neste sábado. 

Por que o conflito?

As tropas americanas mantinham certa estabilidade na região, já que se aliaram aos curdos durante a guerra civil na Síria para combater o avanço do grupo terrorista Estado Islâmico (EI). Cerca de 11 mil militantes do grupo estão detidos sob o comando de autoridades curdas, além de suas famílias, e o enfraquecimento dos curdos pode levar a soltura dos terroristas.

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Ataques aéreos perto de uma prisão na cidade de Qamishli, capital da região, na sexta-feira, permitiram a saída de cinco prisioneiros do EI. O grupo extremista já reivindicou a autoria de uma explosão de um carro bomba na cidade. Um segundo carro bomba explodiu na manhã deste sábado nos arredores de uma prisão com membros do EI na cidade de Al Hasakah.

Neste sábado, a Turquia novamente negou qualquer possibilidade de diálogo com os curdos, sob mediação dos EUA, após o presidente Erdogan ter sustentado na sexta-feira que não haveria negociação.

O ministro das Relações Exteriores do País, Mevlut Cavusoglu, disse em entrevista que a Turquia "não media ou negocia com terroristas. A única coisa a ser feita é que esses terroristas abaixem suas armas", afirmou. "Nós tentamos uma solução política na Turquia no passado e vimos o que aconteceu". 

A debandada parcial de tropas americanas foi considerada como um “sinal verde” por congressistas americanos para o avanço da Turquia, que considera os curdos terroristas e teme aumento do movimento separatista curdo, com guerrilhas responsáveis por atos terroristas durante décadas. Apátridas, os curdos habitam em maior parte a Turquia e correspondem a 20% de sua população. / NYT e AFP

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