Turquia bombardeia Síria em resposta a ataque que matou 5 na fronteira

Tensão. Explosão de morteiro disparado do território sírio mata duas mulheres e três crianças em Ankcakale, no sudeste turco; responsabilizado por Ancara, Damasco afirma que investigará ação, que foi condenada por Otan, ONU e pelo governo dos EUA

ANCARA, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2012 | 03h05

Um morteiro disparado da Síria matou ontem em Ankcakale, no sudeste da Turquia, duas mulheres, três crianças e deixou pelo menos outras oito pessoas feridas. O governo turco responsabilizou Damasco pelo ataque e respondeu militarmente à ação, usando artilharia contra alvos no território sírio. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) convocou uma reunião de emergência para tratar do assunto.

"Nossas Forças Armadas (localizadas) na região da fronteira responderam imediatamente a esse abominável ataque de acordo com as regras de combate. Alvos foram atingidos por fogo de artilharia disparado contra locais na Síria identificados por radar", afirmou o gabinete do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, em comunicado.

De acordo com a emissora turca NTV, os radares das forças de Ancara detectaram as posições de onde os disparos vindos da Síria partiram e os locais foram contra-atacados.

O governo sírio afirmou que investiga a origem do ataque e mandou condolências ao povo turco. O ministro da Informação de Damasco, Omran Zoabi, afirmou que o país respeita a soberania dos vizinhos e pediu que esses países também respeitem sua soberania - e impeçam milicianos armados de entrarem na Síria desde seus territórios.

Provocação. "A Turquia nunca deixará sem resposta tais provocações do regime sírio contra sua segurança nacional", afirmou Ancara. Segundo a agência de notícias oficial turca Anatolia, uma mãe, suas três filhas e uma outra mulher morreram no ataque em Ankcakale.

Autoridades afirmaram que quatro foguetes disparados da Síria caíram na cidade turca. Após a ação, centenas de cidadãos marcharam em direção ao escritório do governo provincial exigindo a renúncia da administração local e medidas de segurança, informaram a CNN e a NTV.

A troca de fogo entre Síria e Turquia é o incidente fronteiriço mais sério ocorrido durante os 18 meses da insurreição que tenta depor o ditador Bashar Assad. O conflito armado, segundo a oposição, já deixou mais de 30 mil mortos.

Pouco depois do ataque em Ankcakale, o vice-primeiro-ministro da Turquia, Bulent Arinc, atribuiu ao regime sírio a responsabilidade pelas mortes dos civis, exigindo uma resposta de acordo com o direito internacional.

Em seguida, o chanceler da Turquia, Ahmet Davutoglu, telefonou para o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, exigindo providências e uma reunião de emergência entre os representantes dos países-membros da organização foi convocada.

A aliança atlântica afirmou, em um comunicado, que o ataque atribuído a Damasco foi uma "flagrante violação ao direito internacional" e exigiu o fim imediato de qualquer agressão contra a Turquia, que integra a Otan. Rasmussen tem afirmado que a organização não tem intenção de intervir no conflito sírio, mas está disposta a defender a soberania dos turcos, caso seja necessário.

"No espírito de indivisibilidade da segurança e da solidariedade decorrente do Tratado de Washington, a aliança exige o cessar imediato de tais atos agressivos contra um aliado", afirmou a Otan.

O Conselho de Segurança da ONU discutiu o tema ontem. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, pediu que o governo turco "mantenha abertos todos os canais de comunicação com as autoridades sírias com a perspectiva de reduzir qualquer tensão que possa ocorrer como resultado do incidente" - segundo afirmou o porta-voz da ONU, Martin Nesirky.

Casa Branca. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, condenou o ataque contra a Turquia. "Estamos indignados pelo fato de os sírios terem disparado para o outro lado da fronteira. Estamos pesarosos com a perda de vidas na Turquia e trabalhamos com nossos amigos turcos", disse Hillary, que qualificou a violência na fronteira como "uma situação muito perigosa".

"Todas as nações responsáveis devem deixar claro que a hora de Assad deixar o poder já passou há muito tempo, declarar um cessar-fogo e começar o atrasado processo de transição (na Síria)", afirmou o porta-voz da Casa Branca, Tommy Vietor. "Estamos ao lado de nossos aliados turcos."

O Pentágono declarou que o ataque contra a Turquia representa mais um "exemplo do comportamento depravado do regime sírio e é a razão de ele (o governo de Assad) ter de acabar".

A tensão entre Turquia e Otan, de um lado, e Síria, de outro, se prolonga desde o início do levante sírio, em março de 2011. O auge havia sido a derrubada de um avião militar turco por uma bateria antiaérea síria, que causou a morte dos dois pilotos turcos. / REUTERS, COLABOROU ANDREI NETTO

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