Turquia chama embaixador e Brasil responde

Ancara reclama de moção do Senado pró-armênios e Brasília critica tom de nota

LISANDRA PARAGUASSU, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2015 | 02h03

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil lamentou ontem, em nota divulgada à imprensa, a decisão do governo da Turquia de chamar para consultas seu embaixador no Brasil, Hüseyin Diriöz, após o Senado brasileiro ter aprovado uma moção de solidariedade ao povo armênio em razão do genocídio ocorrido durante a 1.ª Guerra.

Na nota, o Itamaraty criticou o tom do texto divulgado à imprensa pela chancelaria turca, na segunda-feira. O comunicado de Ancara condena a resolução por considerar que ela "distorce as verdades históricas e omite a lei". "A consideramos um exemplo de irresponsabilidade", concluiu Ancara.

A moção do Senado foi aprovada na semana passada com a assinatura de 55 senadores e diz que o texto é uma "homenagem às vítimas e reconhece a contribuição para a formação econômica, social e cultural do Brasil de milhares de brasileiros descendentes de refugiados" armênios no centenário do genocídio, lembrado no dia 24 de abril.

O governo turco acrescentou que seu ponto de vista a respeito da morte de milhares de armênios durante a 1.ª Guerra foi transmitido ao embaixador do Brasil em Ancara ao ser convocado ao Ministério das Relações Exteriores na quarta-feira.

Historiadores estimam que cerca de 1,5 milhão de armênios foram mortos entre 1915 e 1923 na Armênia sob o regime do Império Otomano. A Turquia reconhece as mortes, mas rejeita a classificação de genocídio. O país diz que elas ocorreram dentro de um processo de realocação por "precaução militar" e foram resultado de "epidemias, escassez de alimentos, condições climáticas".

De acordo com o Itamaraty, no dia 1.º, o embaixador turco foi chamado para uma conversa com o secretário-geral do MRE, Sérgio Danese, quando recebeu "amplas explicações sobre os procedimentos então em curso no Senado" e "sobre a tradicional posição do Brasil na matéria, que permanece inalterada".

O governo brasileiro não reconhece o massacre como genocídio. "As mesmas explicações foram transmitidas pelo secretário-geral ao embaixador da Armênia", diz o texto.

O governo brasileiro explica ainda que o Senado "agiu dentro das suas prerrogativas constitucionais e em consonância com o princípio da independência de poderes consagrada pela Constituição brasileira".

"O governo brasileiro mantém a expectativa de que as relações bilaterais com a Turquia, formalmente definidas como estratégicas pelos dois países, possam retornar em breve à plena normalidade."

Novo governo. Ainda ontem, o primeiro-ministro da Turquia, Ahmet Davutoglu, renunciou em uma medida regimental após a eleição de domingo, na qual o governista Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), de Davutoglu, ficou em primeiro lugar, mas perdeu a maioria no Parlamento pela primeira vez desde 2002.

Ele continuará no cargo até que um novo governo seja formado, informou o gabinete do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, em comunicado.

Erdogan deve pedir oficialmente que Davutoglu forme um governo assim que os resultados finais da eleição sejam publicados pelas autoridades eleitorais, o que pode não ocorrer até a próxima semana.

A derrota no domingo forçará o AKP a formar um governo de coalizão com uma sigla da oposição, processo que pode levar semanas; ou tentar formar um governo sozinho, mas de minoria.

Se o primeiro-ministro não conseguir formar o governo, algo muito possível em razão da atitude hostil dos três partidos da oposição, a missão passaria ao partido social-democrata CHP, que obteve 25% dos votos. Caso ninguém consiga formar um governo em 45 dias, o presidente deverá convocar novas eleições. / COM EFE e REUTERS

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