AFP PHOTO / BULENT KILIC
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Turquia confirma que investiga Estado Islâmico por atentado em Ancara

Premiê Ahmet Davutoglu diz que grupo radical é principal suspeito dos ataques de sábado; número oficial de mortos sobe para 97, mas curdos afirmam que 128 pessoas morreram nas explosões

O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2015 | 22h29

ANCARA - O primeiro-ministro da Turquia, Ahmet Davutoglu, confirmou ontem que o governo investiga a participação do Estado Islâmico (EI) no atentado de sábado, em Ancara. “O EI é nosso principal suspeito”, disse o premiê à emissora NTV. “Estamos perto de um nome. E este nome aponta para uma organização.” 

Davutoglu disse que não poderia dar mais detalhes sobre as investigações para não alertar “células adormecidas” do grupo terrorista. “Estas células poderiam se esconder, alterar sua rotina ou mudar o modo de vida”, disse o premiê. Além das declarações de Davutoglu, vários jornais turcos também afirmaram ontem que as investigações estão concentradas em seguidores do EI na Província de Adiyaman. 

A polícia turca teria distribuído na região fotos de 16 possíveis homens-bomba e começou ontem a analisar o DNA desses 16 suspeitos para compará-los com os restos dos autores do atentado de Ancara. A ligação do EI parece mais evidente ainda quando o ataque é comparado com o realizado em Suruc, em julho, quando um homem-bomba do EI, utilizando o mesmo tipo de explosivo, matou 33 ativista da esquerda curda.

O governo turco deu ontem mais detalhes do atentado de sábado. Numan Kurtulmus, vice-premiê, confirmou que foram dois homens-bomba, cada um carregando 5 quilos de TNT. O número de mortos, de acordo com autoridades locais, subiu ontem para 97 - partidos ligados aos curdos, porém, garantem que 128 pessoas morreram. A polícia anunciou ainda a prisão de quatro suspeitos, membros do EI, na cidade de Adana, no sudeste do país. 

A aparente facilidade com que os terroristas penetraram na manifestação de sábado - apesar de várias denúncias e alertas - deixou entre os turcos a impressão de cumplicidade do governo do presidente Recep Tayyip Erdogan. O protesto que foi alvo do ataque era liderado por partidos de esquerda da Turquia e grupos pró-curdos do país, principais protagonistas da onda de protestos antigoverno de 2013.

Ontem, pelo segundo dia seguido, várias manifestações contra Erdogan foram registradas nas principais cidades da Turquia. Associações de médicos, engenheiros e os principais sindicatos do país convocaram uma greve geral para hoje e amanhã. 

A tensão política na Turquia atinge o ápice a apenas três semanas da eleição marcada para 1.º de novembro. O AKP, partido de Erdogan, anunciou que suspendeu sua campanha até sexta-feira em razão do atentado. O CHP, o maior partido de oposição, retomará as atividades eleitorais na quinta-feira. 

Murat Karayilan, líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), rejeitou ontem qualquer tipo de resposta armada ao ataque. Ele pediu que os membros do PKK voltem a suas posições nas montanhas para “honrar” a vontade das vítimas do ataque de Ancara, que marchavam pela paz.

O prêmio Nobel de Literatura de 2006, o escritor turco Orhan Pamuk, criticou ontem o presidente Erdogan, a quem chamou de “autoritário”, e reconheceu que teme uma guerra civil no país. “Tenho o coração partido”, afirmou o escritor em entrevista ao jornal italiano La Repubblica ao comentar o atentado de sábado.

Autor de obras que questionam a alma melancólica da Turquia, Pamuk afirmou que “o medo” vem tomando conta do país. “Vejo o temor nos rostos e nos corações das pessoas, este é o sentimento que governa a Turquia”, disse.

O célebre escritor turco se define um democrata de ideias liberais e acusa Erdogan de ter criado as tensões atuais em razão de sua ambição pelo poder. “A derrota eleitoral nas eleições de junho enfureceu Erdogan, porque ele não conseguiu convencer os curdos de seu projeto de república presidencial”, afirmou Pamuk. “Então, o governo e o Exército decidiram começar uma guerra contra o movimento curdo.” / AP, AFP e REUTERS 

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