Turquia congela cooperação militar e política com a França

Governo turco retira embaixador de Paris após aprovação de lei sobre o genocídio armênio pelo Parlamento francês

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2011 | 03h04

Uma lei aprovada ontem na Assembleia Nacional da França, com apoio do governo de Nicolas Sarkozy, causou um incidente diplomático entre turcos e franceses. Ancara chamou de volta seu embaixador em Paris, congelou a cooperação política e militar entre os dois países e suspendeu as visitas oficiais bilaterais.

O texto aprovado pelos parlamentares franceses prevê um ano de prisão e uma multa de € 45 mil para quem negar genocídios no país. A lei, considerada por muitos esdrúxula, tem como alvo direto o governo de Ancara, que não reconhece o genocídio de 1,5 milhão de armênios, que teriam sido mortos pelos turcos entre 1915 e 1917.

Desde 2001, a França reconhece os crimes contra a humanidade cometidos pelo antigo Império Otomano. O projeto de lei aprovado ontem foi proposto pela União por um Movimento Popular (UMP), partido de Sarkozy. A lei tem como objetivo oficial reduzir a contestação de crimes contra a humanidade reconhecidos pelo Estado, mas ninguém nega que o alvo é o genocídio armênio.

Sarkozy já havia defendido que seu país criasse uma lei sobre o tema durante sua visita à Armênia, em outubro. Na ocasião, o presidente francês, que também é contra a entrada da Turquia na União Europeia, criticou o governo turco. Ontem, vários integrantes do governo defenderam a iniciativa do Parlamento.

Agradecimento. Na Armênia, o ministro das Relações Exteriores, Edouard Nalbandian, publicou nota oficial na qual agradeceu ao Parlamento francês pela decisão. "Quero expressar minha gratidão às mais altas autoridades da França, à Assembleia Nacional e ao povo francês", afirmou.

Retaliação. Em Ancara, porém, a reação foi oposta. Em pronunciamento, o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, anunciou as retaliações. A Turquia nega ter cometido o massacre e afirma que os armênios mortos, que seriam 500 mil, teriam sido vítimas da guerra.

"Infelizmente, essa proposta foi adotada a despeito de nossas advertências", afirmou Erdogan. "Isso abrirá feridas irreparáveis e muito grandes nas relações bilaterais." Líderes políticos turcos denunciaram os supostos crimes de guerra cometidos pela França na Argélia e em Ruanda, ao longo do século 20, e alegaram que o país distorce fatos históricos para prejudicar a Turquia.

Em resposta, o ministro das Relações Exteriores da França, Alain Juppé, tentou colocar panos quentes no incidente, cujas consequências são, por ora, imprevisíveis. "Espero que nossos amigos turcos não exagerem na reação", afirmou. "Eu lamento essa primeira reação e apelo ao bom senso e à prudência."

Além de causar o estremecimento das relações entre França e Turquia, a lei apoiada por Sarkozy causou muita divergência dentro do país. Juppé reafirmou à imprensa francesa sua oposição à medida, que considera "inoportuna".

'Estupidez'. De acordo com o jornal Le Canard Enchainé, o ministro chegou a qualificar a decisão de uma "estupidez intelectual, econômica e política". Já o candidato do Partido Socialista (PS) à presidência, François Hollande, classificou a ação de Sarkozy como uma "operação eleitoreira", com o objetivo de obter o voto de descendentes armênios na França.

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