AP Photo/Kayhan Ozer Presidential Press Service
AP Photo/Kayhan Ozer Presidential Press Service
Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Turquia contra a Europa

Erdogan sabe que seus ataques são perigosos, mas tem cartas na manga

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2017 | 05h00

Em 16 de abril os eleitores turcos votarão em um referendo convocado por Recep Tayyip Erdogan e deverão responder se aceitam torná-lo um super presidente, um ditador legal. O “sim” no referendo dará a Erdogan poderes ainda mais “plenos” do que os que ele já possui. E permanecerá no seu “trono” até 2029.

O referendo não será uma simples formalidade, apesar de Erdogan já controlar a situação e ter lançado no calabouço uma grande parte da elite turca. Os privilégios exigidos agora por ele são tão exorbitantes, tão disparatados que até seus partidários se inquietam. Não espanta, portanto, o fato de o presidente estar em campanha eleitoral de manhã à noite.

E esta campanha se compõe de três partes: em primeiro lugar, Erdogan colocou na prisão, ou deixou sem possibilidades de prejudicá-lo, aqueles que discordam de sua política, e são centenas de milhares. Segundo, ele tem multiplicado os discursos alardeando que em 16 de abril a Turquia vai reencontrar seus reais valores, os valores que os turcos respeitavam nos tempos gloriosos do Império Otomano.

Erdogan demoliu totalmente o edifício da Turquia moderna, o grande país criado por Kemal Ataturk após a guerra de 1914, que forjou uma nação ao mesmo tempo laica e militar. Erdogan elogia incansavelmente a fibra islâmica de seus partidários. Termina sempre seus comícios levantando apenas quatro dedos em alusão ao símbolo da “Irmandade Muçulmana”. E acusa os defensores do “não” de “insultarem o Islã”.

Nos seus comícios, também está presente um outro tema: a Europa, que ele rechaça violentamente a cada discurso e em termos insanos. No início, Erdogan contentava-se em insultar os dirigentes europeus, como a chanceler alemã, Angela Merkel, que segundo ele se comportava como os “nazistas”.

Mas atacar a chanceler alemã não era suficiente. No domingo o presidente Erdogan anunciou que, após o referendo que o tornará um presidente absoluto, convocará um segundo escrutínio sobre a adesão da Turquia à União Europeia.

Curioso: trata-se do mesmo Erdogan que à época em que era mais respeitável, adotava um islamismo moderado e batalhava para seu país ser admitido na União Europeia. Os europeus na ocasião (talvez erroneamente) decidiram não abrir a porta da Europa para a Turquia, apenas entreabri-la. E há 15 anos as conversações prosseguem, cada vez mais difíceis e irreais.

Agora o presidente turco inverte sua posição: por despeito ou convicção, não quer mais a Europa. Prova disso é sua disposição a restabelecer a pena de morte, pena que estava no gene da Turquia e foi abolida exatamente para não ser um obstáculo à entrada do país na União Europeia. Hoje Erdogan manifesta sua vontade insana de restaurar a pena de morte no país, que é uma bênção, afirma.

Claro que ele sabe que os ataques contra Merkel ou a União Europeia são perigosos. A Europa, com seu mercado de 500 milhões de consumidores, é fundamental para a poderosa Turquia. Mas sabe que tem algumas cartas na mão.

Há dois anos, quando a Europa entrou em pânico por causa dos milhões de migrantes que chegavam às suas fronteiras, a chanceler alemã manteve um encontro de urgência com Erdogan e a Turquia passou a receber o excedente de migrantes amontoados na Grécia. O acordo salvou a Europa e a Alemanha e continua em vigor. Mas Erdogan poderá rescindi-lo num momento de cólera. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.