Erdogan radicaliza reação a golpe e pena de morte avança no Parlamento

Erdogan radicaliza reação a golpe e pena de morte avança no Parlamento

União Europeia e Estados Unidos mandam alerta a Erdogan e dizem que 'estado de direito' no país deve ser respeitado; prisões atingem militares, magistrados, policiais e outros funcionários públicos

Jamil Chade - CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2016 | 08h18

O governo turco reforçou nesta segunda-feira, 18, sua resposta à fracassada tentativa de golpe na sexta-feira cumprindo sua promessa de “limpar” o Estado de opositores – afastando 8 mil policiais – e ameaçando restabelecer a pena de morte, suspensa em 2004. Pelo menos 17 mil pessoas foram, de alguma forma, atingidas pelo expurgo promovido por Ancara. 

Até hoje, 7,5 mil pessoas tinham sido presas, entre elas, 6 mil militares, 755 magistrados e 100 policiais.  Outros 3 mil mandados de prisão foram decretados contra juízes e procuradores. Também ontem, 8,7 mil policiais e outros funcionários do Ministério do Interior foram suspensos. A operação ainda atingiu um governador de província e 29 prefeitos. 

O presidente turco, Recep Tayyp Erdogan, havia prometido no domingo “limpar o vírus” do golpe de Estado. Ele acusa um de seus maiores opositores, Fethullah Gulen, de ter organizado a operação. Gulen, auto-exilado nos EUA, nega qualquer participação no movimento.

Em entrevista à TV americana CNN, Erdogan disse que o povo turco “quer a pena de morte” para os envolvidos na tentativa de golpe. “O povo tem a opinião de que esses terroristas deveriam ser mortos. Por que eu deveria mantê-los e alimentá-los em prisões pelos próximos anos, isso é o que o povo diz”, disse Erdogan em um trecho da entrevista divulgado pela CNN. 

Ele afirmou que a decisão de restabelecer a pena de morte é do Parlamento e, se assim for definido, ele sancionará a medida. Os apelos para que seja retomada a pena capital aumentaram depois de sexta-feira. 

Os dados do expurgo divulgados pelo primeiro-ministro Binali Yildirim indicaram que chega a 308 o número de mortos no caos instaurado na sexta-feira. “Vamos exigir que paguem cada gota de sangue derramada”, indicou Yildirim. 

A ofensiva de Erdogan ocorreu hoje ao mesmo tempo em que, reunida em Bruxelas, a União Europeia (UE) lançou um alerta ao governo de Ancara para que respeite o Estado de direito no país. 

“Assim como fomos na Europa os primeiros a dizer que a democracia precisava ser protegida, naquela trágica noite, hoje também diremos que isso obviamente não significa que o estado de direito e os controles não contam. Pelo contrário, eles precisam ser protegidos pelo bem do país”, disse a chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini, antes da reunião. No domingo, o governo de Barack Obama fez um alerta semelhante. 

Erdogan, porém, rejeitou a acusação de que esteja agindo fora das normas. Mas a decisão de avaliar a possibilidade de reintroduzir a pena de morte abriu uma série de críticas.

Em Bruxelas, o temor é de que Erdogan use a tentativa de golpe para reforçar seus poderes e punir não apenas os autores da frustrada iniciativa de tomar o poder, mas qualquer outro tipo de opositor. 

Lista. O principal negociador da adesão da Turquia à UE, Johannes Hahn, manifestou preocupação com o fato de que Erdogan possa aumentar seu autoritarismo, sugerindo que a rapidez das prisões dão sinais de que listas de opositores já estariam prontas antes mesmo da tentativa de golpe. “Parece que havia algo preparado”, disse. 

Hoje, o general Akin Öztürk, ex-comandante das Forças Aéreas da Turquia e apontado como líder da tentativa de derrubar o governo, negou ter participado da rebelião e afirmou que tentou impedir o golpe. Ele foi detido no sábado e levado ontem ao tribunal. 

Veículos de imprensa especularam que o general era cotado para ser o novo chefe do Estado-Maior se o golpe desse certo. 

O chanceler da Bélgica, Didier Reynders, enviou o recado para o governo de Ancara de que um eventual retorno da pena capital no país significaria o fim do processo de adesão da Turquia à União Europeia. “Não podemos imaginar isso num país que queira aderir à UE”, disse Reynders. “Teremos de ser muito duros hoje. Condenamos o golpe. Mas a resposta precisa estar dentro do estado de direito”, alertou. 

Nenhuma execução é realizada na Turquia desde 1984 e, em 2004, o governo decidiu abolir a pena capital, com o objetivo de acelerar sua adesão ao bloco europeu.

O alerta da União Europeia também foi reforçado por um recado do secretário de Estado americano, John Kerry. Ele pediu ao governo de Ancara que não vá “longe demais” em sua ofensiva contra os que cometeram a tentativa de golpe na sexta-feira. “Pedimos ao presidente Recep Tayyip Erdogan que mantenha a calma, garanta o estado de direito e mostre respeito pelas instituições”, disse Kerry. / COM REUTERS E EFE 

 

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