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Turquia abate caça russo e Putin diz que é 'punhalada nas costas'

Segundo governo de Ancara, aeronave foi derrubada após violar o espaço aéreo turco, Moscou nega invasão; pilotos se ejetaram, mas um foi morto a tiros

O Estado de S. Paulo

24 de novembro de 2015 | 07h26

ANCARA (atualizado às 22h00) - A Força Aérea Turca abateu ontem um caça Sukhoi russo na fronteira do país com a Síria, o que deteriorou as relações entre Moscou e Ancara. Ao menos um dos pilotos morreu. O presidente russo, Vladimir Putin, qualificou o ataque turco de “uma punhalada nas costas”. Já o presidente turco, Recep Erdogan, disse que seu país tem o direito de proteger suas fronteiras e tentou evitar o confronto.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), da qual a Turquia faz parte, convocou uma reunião de emergência. Segundo militares turcos, o caça russo ignorou diversos avisos de alerta após entrar em espaço aéreo do país. A incursão durou 17 segundos. Já os russos garantem que o Sukhoi Su-24M não saiu da Síria. 

Imagens da emissora turca Haberturk TV mostraram o avião de guerra despencando em chamas em uma área de floresta, deixando um rastro de fumaça. A aeronave caiu em uma região conhecida como Montanha dos Turcos, disse o canal.

Outras imagens da agência turca Anatolia mostraram dois pilotos descendo de paraquedas pouco antes de o avião cair. O governo russo confirmou a morte de um dos pilotos. Grupos rebeldes que combatem o regime de Bashar Assad na área disseram que o segundo militar também foi morto em terra, o que os russos ainda não confirmaram. 

“A tripulação (do Su-24) se ejetou. Segundo dados preliminares, um dos pilotos morreu no ar por disparos efetuados no solo”, informou o general Sergei Rudskoium, porta-voz do Estado-Maior do Exército russo.

Ainda de acordo com ele, o míssil disparado por um caça turco F-16 atingiu o avião de guerra russo sobre o território da Síria. “O local do incidente do avião encontra-se em território sírio, a 4 quilômetros da fronteira”, disse.

O porta-voz não esclareceu a situação do segundo piloto. O Exército Livre Sírio diz tê-lo em seu poder. Milícias de minoria turcomana que atuam na região asseguram que o mataram.

Irritação. Em reunião em Sochi com o rei da Jordânia, Abdullah II, Putin – falando pausadamente, mas claramente irritado – acusou os turcos de traição e de darem guarida a militantes do Estado Islâmico. “Foi uma facada nas costas. Nunca toleraremos crimes como o cometido hoje”, disse Putin. “Foi uma traição de quem é cúmplice do terrorismo. Não posso chamar de outra forma.”

O Ministério da Defesa da Rússia protestou oficialmente à Turquia pela derrubada do caça. Moscou considerou as ações da Força Aérea turca como um “gesto não amigável” e prometeu trabalhar em um pacote de medidas para responder a incidentes desse tipo.

Erdogan disse que os militares turcos tentaram a todo custo evitar disparar contra o caça. “Apesar de terem sido avisados dez vezes em cinco minutos que estavam se aproximando da nossa fronteira, eles insistiram na violação”, disse Erdogan em discurso em Ancara. “O caça foi derrubado por nossos F-16.”

O presidente turco disse ainda que a razão pela qual incidentes similares não ocorreram antes é a “calma e o sangue frio” dos militares turcos. “Ninguém deve duvidar de que fizemos nosso melhor para evitar esse incidente. “Todos devem respeitar nosso direito de defender nossas fronteiras”, acrescentou.

Em carta enviada ao Conselho de Segurança, o embaixador turco na ONU, Halit Cevik, disse que os caças receberam dez advertências em cinco minutos enquanto se aproximavam da Turquia pela região de Yayladag-Hatay. “Ignorando esses avisos, ambos os aviões, a uma altitude de 19 mil pés, violaram o espaço aéreo turco até uma profundidade de 1,36 milha e uma extensão de 1,15 milha durante 17 segundos”, diz a carta.

Em reunião na Casa Branca com o presidente francês, François Hollande, o presidente americano, Barack Obama, defendeu a decisão turca de abater o caça. “A Turquia tem direito de defender sua fronteira e seu espaço aéreo”, disse Obama, que lembrou que a Rússia tem atacado grupos sunitas que combatem o regime de Bashar Assad apoiados pela Turquia e países ocidentais. “Se a Rússia concentrasse seus ataques no EI, incidentes como esse dificilmente ocorreriam.”

O incidente ocorreu em um momento no qual a Rússia e as potências ocidentais lentamente tentam encontrar uma estratégia comum de combate ao EI depois dos atentados de Paris, no dia 13, e da queda de um avião cheio de turistas russos no Egito, uma semana antes.

Esse é o primeiro avião perdido pela Força Aérea russa, que bombardeia posições de organizações terroristas na Síria desde o dia 30 de setembro. As relações entre Turquia e Rússia têm piorado nas últimas semanas, desde que Ancara denunciou violações russas de seu espaço aéreo e alertou que derrubaria os aviões que voltassem a entrar sem autorização em seu território.

Na época, a Rússia reconheceu os incidentes e os atribuiu às más condições meteorológicas na região da base aérea de Jmeimim, usada pela Força Aérea do país na operação na Síria. Além disso, Moscou afirmou que o local está a apenas 30 km da fronteira sírio-turca. Ancara, que se opõe à intervenção militar russa na Síria, pediu o estabelecimento de uma área de exclusão aérea na fronteira.  /REUTERS e EFE

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