Turquia e EUA estão em rota de colisão

Crise sem precedentes na relação entre os dois países é reflexo de objetivos externos totalmente divergentes

Cristiano Dias, O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2007 | 00h00

No faz-de-conta das relações internacionais, Turquia e EUA pareciam bons amigos. Os turcos são membros da Otan desde 1952 e tornaram-se os melhores interlocutores islâmicos dos burocratas de Washington. Tanto que um terço do combustível usado pelos americanos em missões no Iraque e 70% de sua linha de suprimentos passam pela base aérea de Incirlik, na Turquia. Longe dos barroquismos diplomáticos, porém, a Casa Branca sabe que a aliança vai muito mal. "Há muito ressentimento entre os turcos, que acreditam que os EUA estão impulsionando a criação de um Curdistão independente", disse por telefone ao Estado Cengiz Aktar, professor da Universidade Bahcesehir, de Istambul. Para Graham Fuller, consultor da Rand Corporation, centro de estudos de Washington, a crise vai além da divergência sobre o Curdistão: "A política externa dos EUA é simplesmente incompatível com a da Turquia." Fuller, autor do livro The New Turkish Republic, que será publicado em dezembro nos EUA, diz que a intromissão da Casa Branca no Oriente Médio nos últimos 15 anos foi um desastre para a Turquia. "As ações americanas só aumentaram o radicalismo e levaram a Al-Qaeda para muito perto das fronteiras turcas."PROBLEMA CURDOHoje 30 milhões de curdos estão espalhados por Iraque, Síria, Irã e Turquia. Sem nunca terem constituído um Estado independente, eles sempre foram duramente reprimidos. Até que as intervenções americanas no Iraque mudaram o equilíbrio de forças na região. A primeira Guerra do Golfo, em 1991, levou autonomia aos curdos iraquianos, que passaram a contar com a proteção da Casa Branca contra o ditador Saddam Hussein. Embora vivessem em diferentes países, os curdos mantinham uma identidade única e eram oprimidos igualmente pelos governos turco, iraquiano, sírio e iraniano. A relação especial com Washington, entretanto, fez com que os curdos iraquianos mudassem suas prioridades e passassem a dar mais importância a concessões para exploração de petróleo do que à luta por um Grande Curdistão, que continua sendo a bandeira da família curda nos países vizinhos.Para o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), um grupo de 3 mil rebeldes curdos turcos, a mudança de atitude dos primos iraquianos foi uma traição. "O PKK quer sabotar a prosperidade do Curdistão iraquiano provocando uma invasão da Turquia", disse Volkan Aytar, analista da Fundação Turca de Estudos Econômicos e Sociais (Tesev), de Istambul.Além de não querer ver o norte do Iraque mergulhado no mesmo emaranhado em que se encontra o resto país, os EUA têm outra razão para não criar inimizade com os curdos. Há um bom tempo, o país financia o Partido Iraniano para um Curdistão Livre, de rebeldes curdos iranianos que usam a mesma estratégia do PKK para irritar o Irã. Inimigo dos EUA, o Irã é o vizinho mais poderoso e o segundo maior exportador de gás da Turquia. Os dois países têm uma fronteira estável desde os impérios Persa e Otomano. Em setembro, Ancara fechou um acordo com os iranianos para a construção de um gasoduto de US$ 3 bilhões, o que irritou os americanos. Os EUA passaram então a pressionar para que os turcos aceitem as sanções impostas ao regime dos aiatolás, mas a Turquia não gosta da idéia de fechar as portas ao Irã.Os dois países também desafinam quando o assunto é a Síria e o mundo árabe. "A relação entre turcos e sírios melhorou muito nos últimos anos", disse Fuller. "A Síria admira a habilidade da Turquia de ser membro da Otan e jogar duro com Washington ao mesmo tempo."Aktar explica que a eleição do presidente Abdullah Gul e do Partido AK (Justiça e Desenvolvimento) mudou a política externa turca. "Antes de Gul, a Turquia era totalmente pró-Ocidente. Com a orientação islâmica do AK, o governo se aproximou dos árabes e se afastou de Israel e EUA." Assim, Ancara resiste às pressões para romper com Damasco e passou a tratar com carinho os palestinos. "Gul vê o Hamas como importante elemento no espectro político local e tenta dialogar com ele", disse Fuller. Outra dor de cabeça para os EUA é a ótima relação comercial entre russos e turcos. A Rússia é a principal exportadora de gás e a segunda maior importadora de produtos da Turquia. Em contrapartida, em 2006, Ancara investiu US$ 12 bilhões na construção civil russa. Parte dos generais turcos, revoltados com Washington, fala em uma "alternativa russa" para a Turquia e espalha boatos sobre uma eventual participação do país na Organização de Cooperação de Xangai, espécie de aliança militar liderada pela Rússia e pela China. Em outubro, no clímax das divergências, o Congresso americano sinalizou a aprovação de uma resolução qualificando como genocídio a matança de armênios por turcos durante a 1ª Guerra Mundial. A proposta deixou os turcos indignados, mas não conseguiu alterar o que já estava em frangalhos. "Nossa relação com os EUA nunca mais será a mesma", afirmou Yasar Buyukanit, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas turcas, assim que foi informado da decisão dos congressistas americanos. "Eles deram um tiro no pé."

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