Turquia e Irã propõem solução regional para Síria

Erdogan defende diálogo entre os países vizinhos da Síria; regime de Assad aceita discutir cessar-fogo temporário

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL / , ANTÁQUIA, TURQUIA, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2012 | 03h02

Em um surpreendente encontro bilateral com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, propôs a ontem abertura de um diálogo tripartite com o objetivo de encerrar os 19 meses de guerra civil na Síria. A oferta foi feita pela manhã, quando os dois líderes se encontraram no Azerbaijão, e representa um passo inédito para negociações de paz. Até aqui, a Arábia Saudita, um dos países que fornece armas aos rebeldes pela fronteira, vetava a participação iraniana nas discussões.

O encontro, fechado à imprensa internacional e com 40 minutos de duração, foi realizado durante a cúpula da Organização de Cooperação Econômica (OCE), em Baku, no Azerbaijão. Até o final da tarde, nenhum comunicado sobre o encontro havia sido divulgado pelas duas partes. O suspense foi quebrado quando Erdogan retornou à Turquia e revelou o teor da oferta.

"Nós propusemos um sistema trilateral, um trio que poderia ser formado pela Turquia, o Egito e o Irã", disse o premiê, referindo-se à criação de um grupo para refletir sobre os meios para acabar com o conflito entre rebeldes e forças do ditador Bashar Assad. "Um segundo sistema poderia ser formado com a Turquia, a Rússia e o Irã. E um terceiro com a Turquia, o Egito e a Arábia Saudita."

Com a proposta, Erdogan tenta colocar o seu país no centro de todas as discussões para solucionar o conflito, cujo saldo já supera os 30 mil mortos. Além disso, tenta trazer o Irã, que apoia o regime de Assad, e a Arábia Saudita, fornecedor de armas e equipamentos aos insurgentes, para a mesa de negociações. A ideia é substituir o Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde a crise política na Síria está travado pela oposição entre Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, de um lado, e a Rússia e a China, de outro.

As tratativas visam reduzir a tensão causada pelos combates na Síria, que ameaçam se espalhar pela região. Desde 20 de setembro, quando forças de Assad bombardearam a cidade de Akçakale, junto à fronteira, os atritos entre os dois países intensificaram-se. Em uma tentativa de distender o clima, o enviado internacional das Nações Unidas à Síria, Lakhdar Brahimi, propôs na segunda-feira um cessar-fogo no Eid al-Adha, o feriado muçulmano de quatro dias que será realizado no final de outubro.

Em resposta, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Síria, Jihad Makdissi, afirmou à agência France Presse que "a Síria está pronta a explorar essa opção", pedindo que o emissário da ONU convença os rebeldes a respeitarem o cessar-fogo.

Bombardeios. Erdogan voltou a defender o direito da Turquia de revidar a cada ataque proveniente do lado sírio. Segundo Ancara, o território turco foi atingido 17 vezes por bombardeios no intervalo de oito dias, em ataques que deixaram cinco mortos. Segundo a agência turca Cihan, Ahmadinejad teria dito que "a Turquia tem razão em sua reação" frente aos ataques das forças de Assad.

Na fronteira entre os dois países, a situação é de expectativa e tensão permanente. No lado sírio, milhares de pessoas continuam a se reunir uma zona distante do conflito, em um primeiro campo de refugiados no interior do país. No lado turco, a movimentação de tropas é crescente ao longo de todo o trecho de fronteira visitado ontem pelo Estado, próximo aos pontos de fronteira que dão acesso às províncias de Idlib e de Alepo, onde carros blindados e lançadores de foguetes estão estacionados.

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