AP Photo/Burhan Ozbilici
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Turquia eleva o tom sobre a Síria; crescem tensões entre Ancara e Moscou

Recep Tayyip Erdogan ameaçou atacar regime sírio 'em todos os lugares' se houver novos ataques a tropas turcas; nos últimos dias, 14 soldados foram mortos em bombardeios

Gokan Nunes / AFP, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2020 | 11h50

ANCARA - O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ameaçou nesta quarta-feira, 12, atingir o regime sírio "em todos os lugares" caso haja um novo ataque às suas forças. A declaração vem em um momento de tensões crescentes que resultaram em críticas públicas entre Ancara e Moscou.

Como sinal da complexidade do conflito na Síria, onde vários países estão envolvidos de maneira mais ou menos direta, confrontos foram registrados no nordeste do país entre milícias leais ao regime de Bashar al-Assad e soldados americanos. Mas é no noroeste, na província de Idlib, que a situação é mais volátil. Apesar de um acordo entre Turquia e Rússia, o regime conduz uma ofensiva há vários meses, com a apoio da aviação russa.

Em Idlib, à catástrofe humanitária - cerca de 700.000 deslocados - somou-se uma crise sem precedentes entre Ancara e Damasco, após a morte de 14 soldados turcos em uma semana em bombardeios da artilharia síria. Em um discurso em Ancara, Erdogan ameaçou "atacar o regime em todos os lugares" na Síria no caso de uma nova agressão às forças turcas.

Ele também reiterou seu ultimato ao regime. Pediu a Damasco que se retire de certas posições em Idlib até o final de fevereiro, ameaçando forçar esse recuo por "todos os meios necessários, na terra e no ar". Em resposta, Damasco acusou Erdogan de estar "desconectado da realidade".

"O chefe do regime turco fez declarações vazias e desprezíveis", informou a agência oficial de notícias Sana, citando uma fonte do Ministério sírio das Relações Exteriores.

Nos últimos dias, a Turquia fortaleceu significativamente sua presença militar na província de Idlib, onde o regime e a Rússia tiveram importantes vitórias contra grupos rebeldes e extremistas nas últimas semanas. Segundo a imprensa turca, Ancara mobilizou mais de 1.000 veículos na província de Idlib em dois dias.

Tensões entre Turquia e Rússia

Idlib está localizada perto da fronteira turca. Ancara teme que a ofensiva do regime sírio cause um novo influxo de refugiados para a Turquia, que já abriga 3,7 milhões de sírios. As tensões em Idlib também prejudicam a relação entre Rússia e Turquia. Apesar de seus interesses conflitantes na Síria, ambas têm fortalecido a cooperação bilateral desde 2016.

Em 2018, Erdogan e o presidente russo, Vladimir Putin, firmaram um acordo prevendo a suspensão das hostilidades em Idlib. Rompendo sua discrição habitual no que diz respeito à Rússia, Erdogan acusou Moscou nesta quarta-feira de participar do "massacre" de civis ao lado das forças do regime em Idlib e denunciou as "promessas que não são respeitadas".

Sem especificar os meios de contenção que serão usados, Erdogan disse ainda que os aviões e helicópteros que bombardeiam civis em Idlib "não poderão mais realizar suas ações como antes".

Pouco depois, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, acusou a Turquia de não fazer nada para "neutralizar os terroristas em Idlib", uma situação que ele considerou "inaceitável". Último reduto da oposição a Assad após quase nove anos de um conflito que matou mais de 380.000 pessoas e fez milhões de refugiados, a província de Idlib é dominada por grupos jihadistas.

Damasco e Moscou afirmam combater "terroristas", mas Erdogan os acusa de atacarem "principalmente civis", a fim de empurrar as populações para a fronteira turca. Sinal, porém, de que Ancara deseja manter o diálogo com Moscou, o chefe da diplomacia turca anunciou o envio, nos próximos dias, de uma delegação à Rússia para encontrar uma solução para a crise de Idlib.

Os confrontos aumentaram em intensidade nos últimos dias. Na terça-feira, um helicóptero do Exército sírio foi abatido por um foguete, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), que atribui o ataque às forças turcas. Ancara não se pronunciou.

No mesmo dia, as forças de Damasco marcaram um ponto importante ao recuperarem a estrada M5. O regime trabalha nesta quarta para proteger o entorno deste eixo estratégico, segundo o OSDH.

Enquanto a atenção está voltada para Idlib, a região de Qamishli foi palco de um confronto entre soldados dos Estados Unidos e forças pró-Assad, acrescentou a ONG. Segundo a coalizão antijihadista internacional liderada pelos Estados Unidos, uma patrulha americana respondeu a tiros, depois de cair em um posto de controle de forças leais a Assad.

O OSDH informou que um soldado do regime sírio morreu após a ação americana na área para evacuar dois veículos militares retidos no vilarejo de Kherbat Ammo. Enquanto a crise de Idlib tensiona as relações entre a Turquia e a Rússia, os Estados Unidos expressaram apoio às autoridades turcas.

O representante especial dos Estados Unidos para a Síria, James Jeffrey, deve se reunir com várias autoridades turcas em Ancara nesta quarta-feira. Ontem, ele garantiu que Washington quer apoiar a Turquia "o máximo possível".

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