Murat Cetinmuhurdar/Presidential Palace/Handout via REUTERS
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Lourival Sant'Anna
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Turquia em apuros

A recusa de libertar o pastor americano e as consequentes sanções dos EUA são o catalisador de uma crise que fermenta há anos

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2018 | 03h00

A crise turca bateu na porta do Brasil na sexta-feira. Depois de cinco dias de alta, o real caiu frente ao dólar pela manhã, com a notícia de que a Justiça turca, controlada pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, rejeitara o pedido de libertação do pastor evangélico americano Andrew Brunson.

O real foi abalado também pelo crescimento do petista Fernando Haddad em pesquisa da XP Investimentos. As duas coisas estão interligadas. O derretimento da economia turca é produto de estratégias semelhantes às que levaram países tão diferentes como Brasil, Venezuela e Irã à ruína: crescimento por meio do gasto público, captura do Estado e relação promíscua com a iniciativa privada.

A recusa da Turquia de libertar o pastor americano, alvo da acusação absurda de envolvimento com terrorismo, e as consequentes sanções dos EUA são o catalisador de uma crise que fermenta há anos.

O presidente turco imaginou que poderia chantagear os EUA com a prisão do pastor, obtendo, em troca de sua libertação, por exemplo, a extradição de Fethullah Gülen, líder sufi (seita moderada do Islã). Gülen, que entrevistei em abril de 2016 em seu exílio na Pensilvânia, foi acusado por Erdogan de liderar a tentativa de golpe contra ele, três meses mais tarde. Não há evidências disso.

Sede de poder

No governo desde 2003, Erdogan tem adotado táticas políticas erráticas. Negociou com os curdos e os transformou em inimigos; rompeu com o russo Vladimir Putin e se reaproximou dele; foi amigo do sírio Hafez Assad e apoiou a Primavera Árabe; facilitou a entrada dos jihadistas na Síria e eles cometeram atentados na Turquia.

Nesses 15 anos, a economia turca cresceu a índices invejáveis (7% no ano passado), graças a uma combinação de gastos públicos e endividamento externo. Como todo populista, Erdogan despreza fundamentos da economia. Ele repete, sem ficar rubro, que juro causa inflação. Nada mais apropriado que o ministro das Finanças, Berat Albayrak, ser seu genro: é preciso lealdade de sangue para encampar posição tão ridícula.

A bolha explodiu no início do ano, com a perspectiva de aumento do juro nos EUA. A lira turca se desvalorizou 45% frente ao dólar no ano. A inflação anual, de 15%, é o triplo da meta. O déficit em transações correntes deve superar 6% do PIB no ano (o do Brasil, 0,6%). 

O país deve US$ 467 bilhões, ou 53% do PIB. Parte desse dinheiro foi pelo ralo, em projetos faraônicos, como uma ponte sobre o Estreito de Bósforo, um novo aeroporto em Istambul e o palácio presidencial de 1.100 cômodos em Ancara, ao custo de US$ 615 milhões. Erdogan é chamado sarcasticamente pelos turcos de “o sultão”.

Outra parte foi gasta nas aventuras militares de Erdogan contra os curdos, na Turquia e na Síria. Incentivadas pela bolha de liquidez, as empresas privadas contraíram dívida de US$ 220 bilhões, que tende a se tornar impagável com a desvalorização da lira. 

As ações das empresas turcas perderam US$ 40 bilhões na última semana, depois que Trump anunciou que ia duplicar as tarifas sobre o aço (de 25% para 50%) e sobre o alumínio (de 10% para 20%). Erdogan reagiu com tarifas de até 140% sobre carros, tabaco, cosméticos e álcool americanos. E fez um apelo patético à população para que troque seus iPhones por celulares turcos.

Erdogan aprovou uma lei com pena de prisão para quem “insulta” o presidente, capturou a Justiça, prendeu os críticos e calou a imprensa. Ninguém na Turquia ousa discordar dele. Ouvindo apenas a própria voz, segue rumo ao abismo – arrastando consigo a Turquia.

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