Turquia encontra corpos de pilotos

Cadáveres dos dois tripulantes de caça derrubado pela Síria há duas semanas são recuperados por navio no Mar Mediterrâneo

ANCARA , O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2012 | 03h06

O Exército da Turquia anunciou ontem ter localizado no Mar Mediterrâneo os corpos dos dois pilotos do caça Phantom 4, derrubado pelas forças antiaéreas sírias no dia 22. O incidente elevou a tensão diplomática entre Ancara e Damasco. Antes aliados, os dois países têm se afastado desde agosto, quando a ofensiva do ditador sírio, Bashar Assad, contra dissidentes e manifestantes pró-democracia se intensificou.

A derrubada do caça levou a uma resposta firme da Turquia, que ameaçou agir de maneira firme em caso de ações hostis sírias. Damasco sustenta que derrubou o jato em defesa própria quando a aeronave invadiu o espaço aéreo do país. A Turquia, por sua vez, afirma que o avião violou acidentalmente o espaço aéreo sírio por poucos minutos e foi abatido posteriormente, já em uma área internacional.

Desde o incidente, a Turquia aumentou a presença militar na fronteira e enviou tanques. Jatos F-16 fizeram sobrevoos na região por três dias seguidos, depois que helicópteros de transporte sírios foram avistados perto da fronteira.

Na terça-feira, Assad disse que o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, envolveu a Turquia no derramamento de sangue que ocorre na Síria ao interferir nas questões internas de Damasco e dar apoio logístico aos rebeldes.

Assad também acusou o governante turco de ter duas caras ao buscar uma agenda sectária na região e tentar convencer Damasco a introduzir reformas políticas, ao mesmo tempo em que ignora as mortes e rupturas democráticas em países do Golfo Pérsico.

"Com o desejo de interferir em nossos assuntos internos desde o início, infelizmente, no período subsequente, o governo de Ancara fez da Turquia uma parte de todos os atos sangrentos na Síria", disse o líder sírio ontem ao jornal Cumhuriyet. "A Turquia deu todo tipo de apoio logístico aos terroristas que matam o nosso povo."

Na primeira parte da entrevista, publicada na terça-feira, Assad lamentou a derrubada do caça turco. Ao jornal Vatan, o chanceler turco, Ahmet Davutoglu, qualificou os comentários de Assad de mentirosos e disse não acreditar em qualquer tipo de arrependimento por parte do líder sírio.

Distanciamento. Na última década, a Turquia manteve laços próximos com o vizinho. Erdogan chamava Assad de "meu irmão" e os dois até já foram fotografados passando férias juntos.

Diante da persistência do líder sírio em ignorar os pedidos turcos pelo fim da violência na repressão aos protestos contra o governo, os dois líderes entraram em desacordos diplomáticos que ganharam uma dimensão pessoal.

Segundo analistas, os fortes laços comerciais desenvolvidos entre a Turquia e países do Oriente Médio influenciaram a decisão da diplomacia turca de se afastar de autocratas após a Primavera Árabe. / REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.