Turkish Presidency via AP
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Turquia enviará tropas à Líbia, anuncia Erdogan

Presidente turco quer proteger facção líbia que disputa poder e com quem tem acordo de exploração no Mediterrâneo 

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2020 | 21h35

ANCARA - O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse nesta quinta-feira, 16, que enviará soldados à Líbia para “alcançar a estabilidade do Governo de União Nacional (GNA, na sigla em inglês)”, que se estabeleceu em Trípoli desde a queda do ditador Muamar Kadafi, em 2011. Apesar de ter o reconhecimento da ONU, grande parte do território líbio é governado pelo Exército Nacional da Líbia (LNA), outra facção, com sede em Tobruk.

O interesse da Turquia na Líbia tem a ver com a assinatura, no fim do ano passado, de um acordo marítimo com o GNA, que lhe deu licenças para exploração e perfuração de gás no leste do Mediterrâneo.

Recentemente, a Turquia publicou um mapa que amplia seu espaço marítimo e sua zona econômica exclusiva, ignorando os direitos de Chipre, Israel e Grécia. Parte do novo mar territorial turco foi negociado em um acordo com o GNA.

Inicialmente, Erdogan disse que seus soldados não ficariam na frente de batalha, mas coordenariam as ações para defender Trípoli contra a tentativa do LNA de depor o GNA. Dias depois, no entanto, o presidente turco mudou de opinião e alertou que suas forças poderiam “dar uma lição” ao LNA se o grupo não mudar sua atitude.

No fim de semana, será realizada em Berlim uma cúpula para discutir alternativas para resolver o conflito. O encontro terá participação de Turquia, Rússia, Reino Unido e Alemanha. A interferência turca na guerra civil da Líbia vem aumentando a tensão no Mediterrâneo desde que Erdogan prometeu, em dezembro, enviar ajuda militar ao GNA, que é chefiado pelo primeiro-ministro Fayez Sarraj e tem o apoio de ONU, EUA, União Europeia e da maior parte da comunidade internacional.

O GNA resiste ao avanço de forças rebeldes comandadas pelo general Khalifa Haftar e apoiadas pela Rússia e por alguns países arabes, como Egito e Emirados Árabes. Os dois lados declararam um cessar-fogo no domingo. Tanto Sarraj quanto Haftar disseram que participarão da conferência em Berlim. 

Conflito dilacera país desde a morte de Kadafi

Para entender como a disputa pelo poder na Líbia vem colocando o Mediterrâneo em pé de guerra é preciso primeiro voltar o conflito civil que dilacera o país desde a morte do ditador Muamar Kadafi, em 2011. Desde então, duas forças se estabeleceram no país.

Em Trípoli, o Governo de União Nacional é chefiado por Sarraj e tem o apoio de ONU, EUA, União Europeia e da maior parte da comunidade internacional, incluindo a Turquia.

Do lado oposto, ocupando a maior parte do território líbio e a maioria dos campos de petróleo, está o LNA. Comandado pelo general Haftar, o LNA tem apoio da Rússia e de alguns países árabes, como Egito e Emirados.

Nas últimas semanas, Haftar lançou uma ofensiva contra Trípoli que ameaça o governo do GNA. Em linhas gerais, o conflito na Líbia repete uma lógica geopolítica parecida com a guerra civil da Síria - de um lado, a Turquia, do outro, a Rússia, em apoio ao governo de Bashar Assad.

No entanto, no caso da Líbia, a tensão também tem relação com a exploração de gás natural nas águas do Mediterrâneo Oriental.

A diplomacia agressiva da Turquia ressuscitou a velha rivalidade com a Grécia. No dia 6 de dezembro, o governo grego expulsou o embaixador turco e afirmou que o acordo assinado com o GNA é uma "flagrante violação do direito internacional". "Esse acordo foi negociado de má-fé", disse o chanceler grego, Nikos Dendias.

Grécia e Turquia são membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e uma crise entre dois países-membros é mais um desafio enfrentado pela já combalida aliança atlântica. / AFP, EFE, AP

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