Turquia expulsa missão síria, Irã faz ameaça e pacto de paz está 'por um fio'

Pessimismo. Massacre de mais de uma centena do fim de semana lança regime de Assad no descrédito e reação eleva a tensão em toda a região; rebeldes do Exército Sírio Livre advertem que agirão para proteger civis, se Damasco não cessar ataques até amanhã

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2012 | 03h09

No mesmo momento em que fontes próximas ao mediador da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, admitiam que o plano de paz para a Síria estava "por um fio", e depois de as potências ocidentais e o Japão anunciarem a expulsão de diplomatas de Damasco, a Turquia ordenou ontem a saída de todo o pessoal da missão da Síria de seu território e ameaçou adotar "novas medidas" se a repressão de Bashar Assad aos opositores não cessar.

"Nunca a situação na Síria foi tão delicada como agora", disse um dos assessores mais próximos de Annan ao Estado. O ex-secretário-geral da ONU nunca conseguiu implementar plenamente seu plano de paz, que abriria as portas para o diálogo entre governo e oposição na Síria, após o cessar-fogo de ambos os lados.

Horas depois da decisão turca de expulsar a missão síria, o Irã declarou que qualquer ataque contra a Síria "engoliria" Israel no conflito. A oposição a Assad, do outro lado, também reforçou as ameaças: se o ditador não implementar o cessar-fogo previsto pelo plano de paz até amanhã, vão se considerar "livres" para voltar aos combates, no que seria a deflagração de uma guerra civil.

China e Rússia criticaram a decisão dos mais de dez países que expulsaram diplomatas sírios e advertiram que bloquearão qualquer tipo de iniciativa para uma ação armada contra a Síria, como chegou a propor na terça-feira o presidente francês, François Hollande.

Há dois dias, vários governos - liderados por França, Grã-Bretanha e EUA - tomaram a decisão de expulsar diplomatas sírios, como resposta ao massacre cometido em Hula. A tragédia deixou 108 mortos, incluindo 49 crianças, e a ONU concluiu que se tratou de uma execução por parte de milícias pró-Assad. O cônsul honorário da Síria na Califórnia, Hazem Chehabi, renunciou ao cargo em protesto pela matança.

Em nota, o governo turco qualificou o massacre de Hula de "crime contra a humanidade". Ancara, que era aliada de Damasco até o início da crise, também indicou que, se as mortes continuarem, não terá outra opção senão agir, sem detalhar quais seriam essas ações. Há poucos meses, a Turquia chegou a falar na criação de zonas-tampão, em território sírio, para abrigar refugiados, e armar a oposição.

A Turquia, ao lado de americanos, ainda liderou a convocação de uma reunião de emergência amanhã, em Genebra, para debater no Conselho de Direitos Humanos da ONU o massacre de Hula. Eles esperam que uma resolução seja aprovada, pedindo que os autores sejam levados a tribunais internacionais.

Horas depois das declarações da Turquia, foi a vez de o Irã responder. O presidente do Parlamento, Ali Larijani, deixou claro que qualquer ação armada contra a Síria teria uma resposta direta em Israel. "A Síria não é a Líbia", disse. "Os efeitos de criar uma nova Benghazi na Síria se espalhariam para a área palestina e as cinzas que sairiam das chamas certamente engoliriam o regime sionista", declarou, em relação à Israel. "Parece que os EUA e o Ocidente estão pavimentando o caminho para uma nova crise", disse.

Em entrevista a uma TV francesa, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, declarou que espera que os autores do massacre de Hula sejam "punidos". Mas acusou o Ocidente de intervir na Síria. "Não podemos confiar nessas pessoas. Seu objetivo é fazer Assad cair", disse.

Ontem, a ONU revelou ter descoberto outros 13 corpos, no que parece ser mais uma execução. Segundo o general Robert Mood, que lidera a missão da ONU na Síria, as vítimas tinham as mãos atadas e foram baleadas na cabeça.

Limite. Diante das mortes, os líderes do Exército Sírio Livre anunciaram ontem que dão apenas mais um prazo para que Assad cumpra o plano Annan. Se até sexta-feira da manhã em Damasco, o cessar-fogo não for implementado pelo regime, o grupo abandonará todo o compromisso com a ONU.

"Estaremos livres de qualquer compromisso e defenderemos e protegeremos os civis, seus vilarejos e suas cidades", declarou o coronel rebelde Qassim Saadeddine. A ONU afirma que tanto o governo quanto a oposição violaram o cessar-fogo.

Moscou reiterou que não muda sua posição e não hesitará em vetar não só uma ação armada, como também novas sanções. "Considerar qualquer nova medida seria prematuro", disse o vice-chanceler, Gennadi Gatilov. O presidente russo, Vladimir Putin, visitará Alemanha e França amanhã e será pressionado a tomar nova posição. Ontem, os EUA insistiram que aliados de Assad estarão no "lado errado da história" se continuarem a apoiar o regime.

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