AP Photo/Lefteris Pitarakis
AP Photo/Lefteris Pitarakis

Turquia ignora Estados Unidos e ofensiva militar na Síria avança

Ancara ataca milícia curda YPG para formar cinturão de segurança próximo à fronteira

O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2018 | 20h39

HASSA, TURQUIA - Intensos combates ocorreram nesta segunda, dia 22, em Afrin, enclave curdo no noroeste da Síria, após o avanço das forças da Turquia na região – que encontram resistência da milícia curda Unidades de Proteção do Povo (YPG), apoiada pelos EUA. Washington pediu “comedimento” a Ancara, mas o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ignorou o apelo e prometeu esmagar seus inimigos curdos.

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A segunda-feira, dia 22, foi o terceiro dia de combates em Afrin. Confrontos entre tropas turcas e combatentes curdos também ocorreram ao leste do território da Síria, o que ameaça ampliar o mais novo front da guerra no país – que opõe a Turquia e os curdos, maiores aliados dos EUA na região. 

As Forças Armadas turcas informaram que um de seus soldados morreu. Ancara afirmou também que sua ofensiva, batizada de Operação Ramo de Oliveira, busca criar uma “zona de segurança” de 30 quilômetros no território sírio, a partir da fronteira entre os dois países. Afrin fica a 20 quilômetros da linha.

“Pedimos que a Turquia demonstre comedimento em suas ações militares e retórica, garanta que suas operações sejam limitadas em alcance e duração, garanta que a ajuda humanitária continue e evite mortes de civis”, declarou a porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders.

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Erdogan, porém, afirmou que está determinado a seguir com a pressão militar. “Não haverá passo atrás em Afrin”, disse o presidente turco, que considera a YPG aliada dos insurgentes curdos que lutam na Turquia. “Discutimos isso (a ofensiva) com nossos amigos russos – temos um acordo com eles. E também discutimos isso com outras forças da coalizão e com os EUA.”

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, afirmou que Washington tinha proposto trabalhar conjuntamente com o governo turco e as forças em Afrin para ver como eles poderiam estabilizar essa situação e atender as legítimas preocupações da Turquia por sua segurança. 

“Se eles (EUA) querem uma cooperação, estamos prontos para essa cooperação. Como o primeiro passo a ser tomado, eles podem parar de armar grupos terroristas e retomar o armamento que já forneceram”, declarou o vice-primeiro-ministro turco, Bekir Bozdag.

O secretário de Defesa dos EUA, Jim Mattis, confirmou que a Turquia notificou os militares americanos sobre a ofensiva e reconheceu as “preocupações legítimas sobre segurança” de Ancara.

Em comunicado, a Otan, aliança da qual a Turquia é membro, afirmou que entrou em contato com Ancara a respeito da ofensiva. Segundo a Otan, o governo turco tem sofrido com o terrorismo e tem direito à autodefesa, mas de uma maneira “proporcional e comedida”. 

Kremlin. Em 11 de dezembro, o presidente russo, Vladimir Putin, declarou que tinha viajado à Síria e anunciou a vitória de suas forças no país. A Rússia tinha iniciado operações no território sírio, em apoio o governo de Bashar Assad, em setembro de 2015, em sua maior intervenção no Oriente Médio em décadas – o que favoreceu as forças do regime. 

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Como quase tudo o que ocorre na Síria a partir de então, a ofensiva da Turquia contra os curdos passou a ser um problema para Putin. O Exército russo ajudou Assad a retomar o controle da maior parte do território sírio. A segunda fase da ofensiva seria no campo diplomático, para legitimar o presidente sírio no cargo. Esse esforço corre perigo se a Turquia voltar a desestabilizar a região.

Turquia, Otan e EUA. Os turcos sempre foram aliados dos EUA. A contenção do comunismo após a 2.ª Guerra, está na base da política externa do presidente americano Harry Truman. Para evitar a expansão soviética, Washington declarou a Turquia como parte de sua área de influência, enviou ajuda financeira e fez do país membro da Otan.

A chamada Doutrina Truman foi o marco inicial da Guerra Fria. Nos primeiros anos do pós-guerra, boa parte das atenções do Kremlin era voltada para os mísseis americanos instalados em território turco – a questão só foi resolvida com a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, quando os EUA aceitaram retirar o arsenal da Turquia.

O apoio dos turcos seguiu intacto, mesmo durante a guerra ao terror, muito impopular no país. A separação começou com a guerra civil na Síria e a luta contra o Estado Islâmico. Os EUA se aliaram aos curdos, contra os jihadistas. Os turcos, porém, consideram os curdos terroristas e se queixam que os EUA protegem o clérigo Fethullah Gülen, que é tido como arquiteto do golpe fracassado contra o presidente Recep Tayyip Erdogan, em 2016. / AP, AFP, REUTERS e W.POST

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