Turquia, o aliado inútil

O país ofereceu refúgio aos rebeldes que combatem Assad, mas fechou os olhos aos jihadistas

O Estado de S.Paulo

04 Março 2013 | 02h04

O objetivo declarado dos Estados Unidos é afastar do poder o presidente da Síria, Bashar Assad. Os EUA insistem também que a solução da crise síria deveria garantir o pluralismo religioso e étnico. Entretanto, esta visão utópica de uma Síria secular e moderada depois da queda de Assad não se concretizará enquanto os EUA continuarem a depender de aliados regionais, pouco interessados neste resultado.

O presidente Barack Obama confia totalmente na Turquia para afastar Assad. Entretanto, a Turquia é parte do problema, pois o país acaba exacerbando a luta sectária da Síria, em vez de contribuir para uma solução pluralista e pacífica.

Enquanto o governo Obama encoraja uma ampla coligação da oposição síria, na qual a influência dos islamistas ficaria circunscrita, a Turquia não tem sido minimamente de ajuda. Ao contrário, o governo turco continuou a usar todo seu peso em prol da Irmandade Muçulmana.

A Irmandade domina o Conselho Nacional Sírio, cujo quartel-general é em Istambul, e conseguiu eclipsar outros grupos que fazem parte da nova coligação da oposição, frustrando o esforço americano que busca dar mais poder aos não islamistas.

Além disso, embora patrocine a causa sunita na Síria, o governo turco não fez nenhuma tentativa para mostrar-se sensível aos temores das minorias alauita, cristã e curda do país. Os alauitas e os cristãos têm apoiado o governo em grandes números, e temem uma retaliação se Assad cair.

A Turquia ofereceu um refúgio crucial aos rebeldes sunitas que lutam contra Assad, e ajudou a armá-los e a treiná-los. O mais grave é que a Turquia fecha os olhos à presença de jihadistas no seu território, e até mesmo se aproveita deles para sufocar as aspirações dos curdos na Síria.

Em novembro, rebeldes islamistas do Jabhet al-Nusra, que mantém vínculos com a Al-Qaeda no Iraque, entraram na cidade síria de Ras al-Ain procedentes da Turquia e atacaram os combatentes do Partido da União Democrática Curda, que assumiu o controle de partes do nordeste da Síria. Os combatentes do Nusra foram de início repelidos, mas continuaram entrando na Síria deixando seu refúgio seguro na Turquia.

Obama investiu considerável capital político na Turquia, cultivando uma relação intensa com o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. Autoridades americanas e turcas vêm mantendo reuniões operacionais regulares desde meados do ano passado, com a finalidade de acelerar a queda de Assad. Em uma recente entrevista ao jornal turco Milliyet, Obama agradeceu ao governo turco "pela determinação mostrada em seus esforços para acabar com a violência na Síria e dar início ao processo de transição política".

Mas o elogio não é merecido. Os EUA não devem esperar que as autocracias árabes sunitas que financiaram o levante sírio, como a Arábia Saudita e o Catar, ajudem a fortalecer os líderes moderados e seculares na Síria. Entretanto, esperava-se que a Turquia, uma aliada da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), promovesse o pluralismo numa Síria após Assad. Não fez nada disso.

O governo Obama deve, portanto, reavaliar o pressuposto de que a Turquia desempenharia um papel construtivo para pôr fim à violência na Síria e também analisar seu próprio papel na contribuição para a luta religiosa.

A política de sanções punitivas adotada pelos EUA e de ameaças militares nem tão veladas contra o Irã animou a Turquia a se afirmar como potência sunita. A percepção de que a Turquia desfruta de uma "cobertura" americana para uma política externa que afronta os interesses iranianos, encorajou o governo turco a jogar seu peso a favor da rebelião armada sunita contra Assad, principal aliado regional do Irã.

A Turquia abandonou rapidamente sua ambição declarada de "evitar todo e qualquer problema com os vizinhos" e decidiu se aliar aos EUA confrontando o Irã. E concordou com a instalação de partes do escudo antimísseis da Otan, que tem como objetivo neutralizar uma suposta ameaça dos mísseis iranianos.

A mudança da Turquia foi determinada pela convicção de que ganharia poderio e estatura, além de benefícios se os EUA conseguissem acabar com as ambições nucleares do Irã.

Tudo isso convinha aos EUA. Washington não teve mais medo de que a Turquia pudesse "desviar-se para leste", como durante a aproximação turco-iraniana de curta duração, alguns anos atrás, quando a Turquia rompeu com seus parceiros ocidentais a respeito da questão nuclear iraniana. A Turquia também parecia ser um trunfo americano, na medida em que pudesse contrabalançar a influência de potências sunitas mais conservadoras, como a Arábia Saudita.

Mas a crise síria teve um efeito radicalizante sobre todas as partes, até mesmo o governo islamista mais moderado da Turquia. Em circunstâncias mais pacíficas, Erdogan poderia atender às expectativas americanas e promover uma visão pluralista para o Oriente Médio. Isso não acontecerá se a região for cada vez mais dilacerada por um violento conflito religioso e seus líderes acreditarem que fazer o jogo sectário aumentará seu poder.

A derrubada de Saddam Hussein do poder no Iraque, em 2003, teve a consequência indesejável de investir mais poder ao Irã. Dez anos mais tarde, o esforço dos EUA para derrubar Assad constitui em parte uma tentativa de remediar a este revés geopolítico. Mas, como aconteceu no Iraque, teve também consequências indesejadas. Além disso, a política americana em relação ao Irã estimula a assertividade oportunista sunita que ameaça desencadear a retaliação xiita.

Os EUA precisam se acautelar ao atender aos pedidos das potências sunitas, particularmente a Turquia, pois defendem programas sectários contrários ao interesse americano da promoção do pluralismo e da tolerância. Se esse sectarismo em ascensão não for contido, poderá levar a um perigoso conflito regional. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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