AP Photo/Emrah Gurel
AP Photo/Emrah Gurel

Turquia prende 42 jornalistas em repressão à tentativa de golpe militar

Presidente da Comissão Europeia colocou em dúvida entrada de turcos na União Europeia e disse que se pena de morte for instaurada, processo deve ser paralisado

O Estado de S.Paulo

25 Julho 2016 | 10h42

ISTAMBUL, TURQUIA - A Justiça da Turquia ordenou nesta segunda-feira, 25, a detenção de 42 jornalistas que "pertencem ao ramo de veículos de imprensa" do império econômico vinculado ao grupo de Fethullah Gülen, o teólogo exilado acusado por Ancara de ser o cérebro da tentativa de golpe militar fracassada realizada no dia 15 de julho.

Entre as pessoas afetadas pela ordem, mas ainda não detida por não estar em casa, está a jornalista Nazli Ilicak, ex-deputada e famosa colunista, informa o jornal Cumhuriyet. Ela foi demitida do jornal pró-governo Sabah em 2013 por criticar o governo e defender a investigação anticorrupção promovida por promotores simpatizantes de Gülen. 

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, colocou em dúvida a antiga aspiração da Turquia de se unir à União Europeia. “Eu acredito que a Turquia, em seu atual estado, não esteja em posição de se tornar um membro em nenhum momento em breve, nem mesmo em um período mais longo”, disse ao canal francês France 2.

Ele também afirmou que se a Turquia reintroduzir a pena de morte - algo que o governo disse que deve considerar, respondendo a pedidos de seus apoiadores em manifestações públicas para que os líderes do golpe sejam executados -, a decisão deve paralisar imediatamente o processo de entrada à UE.

O país aboliu a pena capital em 2004, permitindo a abertura de conversas para se juntar à UE no ano seguinte, mas as negociações tiveram lento progresso desde então. Respondendo aos comentários de Juncker, o ministro de Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, disse ao canal Haberturk que a Europa não pode ameaçar a Turquia em relação à pena de morte. 

Erdogan declarou estado de emergência no país, o que o permite assinar novas leis antes de aprovação parlamentar e limitar os direitos que julgar necessários. O governo reiterou que essas medidas são necessárias para identificar apoiadores do golpe e que não vão infringir os direitos de turcos comuns. 

Protestos. No domingo, houve novos protestos em Istambul contra a tentativa de golpe, que reuniu pela primeira vez opositores e partidários do presidente turco Recep Tayyip Erdogan. "Nem golpe de Estado, nem ditadura!", gritaram milhares de turcos que invadiram a praça Taksim.

A concentração dos manifestantes aconteceu sob fortes medidas de segurança, e foi convocada pelo principal partido de oposição, o Partido Republicano do Povo (CPH, laico e de centro-esquerda). "Defendemos a república e a democracia" e "A soberania pertence ao povo sem condições", eram os letreiros de alguns cartazes. Muitos opositores ao governo, além de rejeitar os golpistas, estão preocupados pela instauração do estado de emergência. "A Turquia é laica e continuará sendo", era o slogan do protesto.

O primeiro-ministro Binali Yildirim afirmou em sua conta no Twitter que "o país está unido para dar uma lição necessária aos golpistas".

Denúncia. A manifestação aconteceu no mesmo dia em que o grupo de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional (AI) afirmou que há provas concretas de abusos e de uso de tortura na Turquia contra pessoas detidas após a tentativa de golpe.

Algumas das pessoas estão sofrendo "espancamentos e torturas, incluindo estupros, em centro oficiais e não oficiais em todo o país", afirmou, em um comunicado, a organização com sede em Londres.

"A Anistia Internacional dispõe de informações concretas segundo as quais a polícia turca em Ancara e Istambul mantêm detidos em posições dolorosas durante períodos que podem chegar a 48 horas", afirma a ONG em um comunicado em que menciona também privação de água, alimentos e medicamentos, injúrias, ameaças e, em casos mais graves, "espancamentos, torturas e estupros".

"As informações sobre espancamentos e estupros sob detenção são extremamente alarmantes", declarou o diretor da Anistia para a Europa, John Dalhuisen, citado em um comunicado. Segundo a AI, alguns detentos também não têm acesso a advogados ou contato com a família.

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A ONG pede que o Comitê Europeu para a Prevenção da Tortura (CPT) envie com urgência representantes à Turquia para observar as condições de detenção no país.

As afirmações da Anistia foram negadas categoricamente por uma fonte turca. "A ideia de que a Turquia, um país que busca aderir à União Europeia (UE), não respeita a lei é absurda", afirmou a fonte, que pediu anonimato. / AFP, EFE e Reuters

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