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Erdogan lança guerra contra 'cúmplices dos terroristas curdos'

Em um discurso para políticos locais, Erdogan pediu ao Parlamento, onde seu partido tem maioria absoluta, que levante rapidamente a imunidade de cinco deputados do Partido Democrata dos Povos (HDP, pró-curdos)

O Estado de S. Paulo

16 de março de 2016 | 18h16

ANCARA - O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, voltou a atacar nesta quarta-feira, 16, as pessoas que considera cúmplices do terrorismo - políticos, jornalistas, intelectuais - três dias depois do violento atentado atribuído a rebeldes curdos.

Em um discurso para políticos locais, Erdogan pediu ao Parlamento, onde seu partido tem maioria absoluta, que levante rapidamente a imunidade de cinco deputados do Partido Democrata dos Povos (HDP, pró-curdos), perseguidos por "propaganda" a favor do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, rebeldes curdos, ilegal).

Erdogan defendeu novamente um ampliação da noção de "crime terrorista". "Perdoem, já não considero como atores políticos legítimos membros de um partido que funciona como filial da organização terrorista (o PKK)", declarou o presidente turco. "Os terroristas não são apenas os que esgrimem as armas e sim, também, os que têm uma caneta na mão", afirmou, em meio a aplausos.

Neste contexto, vários universitários ou advogados foram detidos nas últimas 24 horas. Oito advogados de uma organização que defende a causa curda foram detidos nesta quarta-feira em uma operação policial em Istambul. A denúncia foi feita pela Associação de Advogados Libertários (OHO) no Twitter.

A associação já havia denunciado ao tribunal constitucional turco a legalidade das operações do governo de Ancara contra os redutos curdos do sul do país, onde o PKK declarou um levante.

A justiça ordenou no dia anterior que fossem presos até seu processo três universitários que assinaram uma petição a favor da paz e denunciando matanças de civis nas mãos das forças de segurança do país.

Um professor britânico da Universidade Bilgi de Istambul, Chris Stephenson, foi colocado em liberdade hoje, depois de passar uma noite detido por ter distribuído folhetos para as festas de ano-novo curdo no dia 21.

Tudo isso acontece na véspera de uma nova cúpula em Bruxelas, na qual a União Europeia (UE) deve fechar um novo acordo com Ancara para frear o fluxo de migrantes.

Vários países da UE expressaram suas reticências à assinatura de um texto com dirigentes turcos acusados de ter vocação autoritária.

A chanceler alemã, Angela Merkel, por exemplo, afirmou que a União Europeia deve manter-se firme junto à Turquia em relação à liberdade de imprensa e aos direitos dos curdos.

"Frente à Turquia, devemos insistir em nossas convicções sobre a proteção da liberdade de imprensa e o tratamento dado aos curdos", afirmou Merkel falando ao Parlamento alemão.

A ONG Human Rights Watch (HRW) denunciou, por sua vez, a campanha de Erdogan para "proibir, castigar e calar todas as críticas na Turquia".

Em novembro, dois jornalistas do jornal de oposição Cumhuriyet foram presos por um artigo no qual acusavam o governo de vender armas aos rebeldes islamitas sírios. Foram libertados, mas seu julgamento começa no dia 25. Eles podem ser condenados à prisão perpétua.

No início do mês, a Justiça turca colocou sob tutela outro jornal da oposição, o Zaman, ligado ao inimigo jurado de Erdogan, o imã Fethulá Gülen. / AFP 

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