Turquia recebe 100 mil sírios em 4 dias

Curdos estariam fugindo de avanço do Estado Islâmico no norte da Síria; fuga em massa é a maior em décadas, de acordo com a ONU

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2014 | 02h02

Em um fluxo sem precedentes desde o início da guerra na Síria, cerca de 100 mil curdos cruzaram a fronteira com a Turquia no fim de semana, fugindo de ataques do Estado Islâmico (EI). O fluxo causou um temor entre autoridades turcas de que a fuga fosse aproveitada por militantes curdos para entrar na Turquia.

A movimentação de sírios ocorreu depois que o EI passou a atacar cerca de 64 cidades na Síria de maioria curda. Desde o início da ofensiva, na semana passada, 39 combatentes islamitas e 27 curdos morreram, assim como 11 civis foram executados pelos jihadistas.

Nos últimos meses, outras minorias já haviam sido alvo do avanço do EI. Até o meio dia de ontem, o governo turco estimava que 60 mil curdos haviam cruzado a fronteira, mas o Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas (Acnur) já falava em cerca de 100 mil refugiados, algo inédito no conflito sírio e um dos maiores deslocamentos forçados, em um curto período, nas últimas décadas.

Na fronteira entre Turquia e Síria, a tensão diante do fluxo inesperado de pessoas acabou em violência quando as forças turcas jogaram bombas de gás e usaram canhões de água para afastar grupos que diziam estar apoiando os refugiados. Líderes curdos insistiam que se tratava de uma ajuda humanitária. No entanto, a polícia alertou que tinha informações de que a estratégia era infiltrar combatentes curdos.

Cidade-chave. O principal alvo do EI é a cidade estratégica de Koban, de 450 mil habitantes, até agora relativamente protegida na guerra civil da Síria. Se a cidade for controlada, os radicais terão um amplo domínio sobre a fronteira norte da Síria com a Turquia e poderão iniciar uma ofensiva contra as regiões de fronteira mais ao leste no território curdo, como Qamichli.

Entre os curdos, os apelos no fim de semana foram direcionados aos EUA e à Europa, para que ataquem o EI na Síria. Em agosto, milícias curdas, atuando em território sírio, cruzaram a fronteira com o Iraque para ajudar a proteger outras minorias nas Montanhas Sinjar.

Ajuda. Agora, os curdos querem que a Casa Branca devolva a ajuda atacando o EI na Síria. Na sexta-feira, a França anunciou que já estava realizando ataques aéreos contra os jihadistas no Iraque. No entanto, Paris afirmou que não autorizaria um ataque na Síria. O governo do presidente sírio, Bashar Assad, também deixou claro que qualquer bombardeio à Síria, mesmo contra o EI, será considerado uma invasão.

No sábado, 300 combatentes curdos da Turquia entraram no território sírio para apoiar os curdos da Síria, segundo o Observatório Sírio dos Direitos (OSDH), organização de oposição ao regime de Damasco.

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