Alexander NEMENOV / AFP
Alexander NEMENOV / AFP

Turquia recebe primeiras unidades dos mísseis antiaéreos russos S-400

Ancara comprou sistema de defesa de Moscou apesar da oposição dos Estados Unidos e de outros membros da Otan

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2019 | 09h43
Atualizado 12 de julho de 2019 | 21h18

ISTAMBUL - Desafiando a ameaça de sanções dos EUA, a Turquia começou a receber nesta sexta-feira, 12,  o primeiro carregamento do sofisticado sistema de mísseis terra-ar S-400 que comprou da Rússia, em um passo importante para testar a posição do país dentro da Otan, ampliando a velha rivalidade entre russos e americanos.

A chegada do equipamento coloca tecnologia russa dentro do território de um dos mais antigos membros da aliança atlântica, algo visto por analistas como parte de uma estratégia do presidente russo, Vladimir Putin, para criar divisões na Otan.

A aquisição do sistema S-400, que inclui um avançado radar para detectar aeronaves, tem forte objeção dos EUA. Ontem, em um raro movimento bipartidário em Washington, senadores democratas e republicanos se posicionaram contra a compra, pedindo ao presidente Donald Trump que aplique sanções aos turcos. 

O sistema importado pela Turquia requer que engenheiros russos o coloquem em funcionamento. O temor dos EUA é o de que, assim, eles terão oportunidade de obter informações cruciais sobre jatos americanos comprados pelos turcos. 

Essa é uma das razões pelas quais o governo Trump se mobilizou para impedir a entrega de novos caças F-35, uma das mais avançadas aeronaves dos EUA, para a Turquia, e suspendeu o treinamento de seus pilotos. Ainda não está claro se a Otan, em troca, poderia ter acesso a alguns segredos russos com a aquisição do S-400. 

Base

O problema, porém, vai além. A compra do sistema russo por um membro da Otan põe em cheque o futuro da base aérea de Incirlik, operada conjuntamente entre EUA e Turquia, e um posto crucial para as forças americanas na região. A base é local de armazenamento de um grande número de armas nucleares táticas americanas, uma herança da Guerra Fria, e está localizada ao lado de zonas de conflito, como Iraque e Irã

Para analistas do Pentágono, o acordo com a Turquia é parte de um plano de Putin para dividir a Otan. “As ramificações políticas são muito sérias, porque confirma a ideia de que a Turquia está se desviando para uma alternativa não Ocidental”, disse Ian Lesser, diretor do Fundo Marshall Alemão.

Estrategicamente posicionada entre Europa e Ásia, e compartilhando uma fronteira no Mar Negro com a Rússia, a Turquia tem sido ao mesmo tempo uma peça vital da Otan e um de seus membros mais difíceis. 

Com um pé nos conflitos do Oriente Médio e outro na Europa, seus interesses nem sempre se alinham com os da aliança atlântica, originalmente criada para a defesa da Europa Ocidental contra os soviéticos. Em vez disso, sob a liderança do presidente Recep Tayyip Erdogan, a Turquia tem desempenhado cada vez mais um papel duplo na disputa entre EUA e Rússia. 

A Otan tem posicionado seu sistema de mísseis Patriot, de fabricação americana, em solo turco desde o início da guerra civil na Síria, mas Erdogan insistiu que seu país precisa do próprio sistema de longo alcance. 

A Turquia tentou por anos comprar seu sistema de mísseis Patriot, mas as negociações com Washington nunca produziram um acordo. O presidente Trump, no encontro do G-20, no mês passado, atribuiu a culpa ao ex-presidente Barack Obama.

Para o professor de relações internacionais da Universidade Altinbas, de Istambul, Ahmet Han, a Turquia realmente precisa preencher uma lacuna em suas defesas. No entanto, ao comprar o sistema russo, os resultados político-militares da transação podem se transformar em uma fraqueza para sua segurança. “Essa entrega (do sistema) já causou uma vulnerabilidade, porque prejudicou as relações da Turquia com a Otan.” 

A chegada do sistema russo introduziu uma consideração extra e tensão em todas as operações da Otan, segundo Han. “Isso é exatamente o que a Rússia está buscando”, disse. Segundo a agência de notícias russa Tass, outro avião com mais partes do S-400 deve decolar em breve. Uma terceira entrega de mais de 120 mísseis de diferentes tipos está programada para ser executada por via marítima até o fim de setembro. / AFP, EFE e NYT 

 

 

 

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