Turquia se torna peça-chave para insurgentes sírios

Diante da omissão do Ocidente, rebeldes contam com país vizinho para obter armas e sonhar com queda de Assad

PROVÍNCIA DE ALEPO, SÍRIA, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2012 | 03h03

Nem Catar, nem Arábia Saudita. O país mais importante para os revolucionários do norte da Síria tem sido a Turquia, por onde entram víveres e armas e para onde migram feridos em estado grave ou que necessitam de atendimento especializado. Ex-aliado de Bashar Assad, o governo de Recep Tayyip Erdogan tornou-se crucial para a sobrevivência dos insurgentes na Província de Alepo - a ponto de seu território ser bombardeado.

Desde que os combates entre o Exército Sírio Livre (ESL) e o regime de Assad migraram para o norte da Síria, o papel da Turquia se tornou decisivo, de acordo com os rebeldes ouvidos pelo Estado. É lá que estão instalados os líderes do Conselho Nacional Sírio (CNS), o maior órgão da oposição no exílio, a Irmandade Muçulmana síria e o comando do ESL, que agora também fincou raízes na Síria. Pelas estradas e postos de fronteira do país, passa a logística da revolução, de alimentos a armas, sejam as doadas pela Arábia Saudita, sejam as compradas no mercado negro, com recursos provenientes do Catar.

"A Turquia é quem mais nos ajuda, por facilitar nossas vidas. É de lá que vem nossa comida e é para lá que vão nossos parentes feridos", explica Adbullah Alyasin, um dos porta-vozes do Exército Sírio Livre (ESL) em Alepo, que já perdeu dois irmãos no conflito e teve um terceiro gravemente ferido socorrido em Antakia, na Turquia. "Muito se fala na ajuda do Catar e da Arábia Saudita, mas é sem os turcos que nossa situação seria muito grave."

Apesar do empenho de Erdogan em demonstrar seu apoio aos rebeldes, apenas 18% da população da Turquia apoia a política de seu partido, o Justiça e Desenvolvimento (AKP), segundo pesquisas de opinião. Grande parte da população também é avessa a qualquer tipo de intervenção da Turquia no país vizinho. "Aqui ninguém apoia o que Erdogan está fazendo na Síria", entende um empresário turco da cidade de Izmir que prefere não ser identificado. "Para nós, é claro que Erdogan está fazendo o que os Estados Unidos estão pedindo, pois nas revoluções da Tunísia, da Líbia e do Egito ele agiu muito diferente."

Os efeitos dessa política externa agressiva se fazem sentir tanto em Ancara, a capital do país, quanto nas suas fronteiras. O primeiro resultado da pressão sobre Assad foi a implosão do eixo estratégico formado por Ancara, Damasco e Teerã nos últimos dez anos - o que, de acordo com a oposição, mina grande parte da iniciativa turca de se tornar uma referência diplomática na região. Em consequência disso, cresce a tensão militar. Ao longo de toda a fronteira, carros blindados do Exército turco têm canhões apontados para o sul, em direção à Síria. Não bastasse, a Turquia enfrenta problemas crescentes com a população curda que vive na fronteira com a Síria e perto do Iraque. / A.N.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.