Turquia tenta dissuadir Síria de novos ataques a seu território

Parlamento turco aprova adoção de ações militares contra país vizinho; analistas dizem que guerra é pouco provável.

Cagil Kasapoglu, BBC

04 de outubro de 2012 | 21h01

Apesar da escalada da tensão entre a Turquia e a Síria, a aprovação de ações militares no Parlamento pode ser interpretada como uma tentativa do governo turco de dissuadir novos ataques a seu território, segundo especialistas.

A tensão entre os dois países se intensificou nos últimos dois dias. Primeiro, a Turquia disparou sua artilharia contra a Síria depois que um ataque de morteiros vindo do outro lado da fronteira atingiu a cidade de turca de Akcakale.

Nesta quinta-feira, o Perlamento turco aprovou uma moção autorizando o governo a realizar ações contra a Síria para o próximo ano.

Entretanto, fontes do governo afirmaram que o objetivo da moção é funcionar como fator de dissuasão contra Damasco. Isso porque a Turquia não estaria interessada em se engajar em uma "operação militar unilateral".

Essa interpretação vem como um alívio para a comunidade internacional e para uma parcela considerável da população turca. A opinião pública no país e contrária a uma escalada militar.

Resposta dura

Centenas de ativistas contrários à guerra fizeram protestos nas ruas das maiores cidades turcas nesta quinta-feira contra a moção aprovada pelo Parlamento e a política adotada pelo governo.

"A Turquia não tem interesse em começar uma guerra com a Síria", publicou no Twitter Ibrahim Kalin, um assessor do premiê turco Recep Tayyip Erdogan.

"Mas a Turquia é capaz de proteger suas fronteiras e irá retaliar quando for necessário", escreveu.

Analistas turcos também dizem acreditar que o governo não pretende lançar uma operação militar.

Pelo contrário, a moção visaria provar que a Turquia tem capacidade de responder a uma incursão de forças sírias em seu território, segundo o especialista em política externa Ilter Turan.

"A mensagem turca à Síria é clara: nós respondemos ao seu bombardeio a Akcakale, mas se vocês continuarem estaremos prontos para dar uma resposta mais dura", afirmou.

Como parte da política - que teve vida curta - do chanceler Ahmet Davutoglu de "problemas zero com os vizinhos", os dois países aboliram as restrições dos vistos de entrada e assinaram acordos de comércio.

Mas desde o início da revolta na Síria em março de 2011, as relações diplomáticas entra as duas nações viraram de cabeça para baixo.

Conflitos

Inicialmente, a Turquia havia tomado a iniciativa de acabar com o isolamento da Síria na comunidade internacional - pedindo a Damasco que implementasse pacotes de reforma.

Contudo, segundo Turan, o presidente sírio Bashar Assad não cumpriu as promessas feitas ao premiê Erdogan.

O fracasso da Síria em implementar as reformas não apenas prejudicaram a reputação da Turquia como mediadora de questões do Oriente Médio, como prejudicou seriamente a relação bilateral entre os países.

O elevado fluxo de refugiados sírios para a Turquia deteriorou ainda mais as relações diplomáticas entre os dois países e levou à discussão sobre a criação de uma "zona tampão" em território sírio.

A escalada da tensão começou em junho, quando um avião de reconhecimento turco foi abatido por baterias antiaéreas sírias.

Em seguida, o governo turco disse que não toleraria mais ataques e elevou o número de tropas na fronteira.

O cenário se agrava devido à minoria curda ter dominado o norte da Síria - o que provocou medo no governo turco que os curdos de seu país se enconragem a adotar ação semelhante. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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