AP Photo/Lefteris Pitarakis
AP Photo/Lefteris Pitarakis

Turquia volta a atacar rebeldes curdos na Síria e mata 21

Erdogan garante em discurso  em Ancara que não retroceder e fala em acordo com russos para ofensiva no norte do país

O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2018 | 12h13

ANCARA -  As Forças Armadas da Turquia bombardearam nesta segunda-feira, 22, posições da milícia curda YPG, no terceiro dia de sua ofensiva no enclave de Afrin, no norte da Síria. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, garantiu em discurso  em Ancara que não retrocederá. "Conversamos com nossos amigos russos e chegamos a um acordo", disse. Ao menos 21 pessoas morreram desde o fim de semana.

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Moscou não confirmou oficialmente se há um acordo com Ancara e chegou a pedir "moderação". Muitos analistas acreditam, porém, que uma ofensiva de grande envergadura não poderia ser lançada na Síria sem o aval da Rússia, que controla o espaço aéreo no norte do país e, na semana passada, retirou suas tropas que estavam em Afrin.

"A operação em Afrin não é conduzida contra os nossos irmãos curdos. É uma operação para lutar contra organizações terroristas", declarou Erdogan, garantindo que "a operação terminará assim que os objetivos forem atingidos".

As forças turcas bombardearam posições das Unidades de Proteção do Povo curdo (YPG), que Ancara considera um grupo terrorista, a partir da cidade de Kilis, na fronteira, segundo a imprensa turca.

De acordo com a agência de notícias estatal Anadolu, as forças turcas destruíram duas posições das YPG no domingo à noite, de onde haviam sido lançados foguetes na direção da cidade turca de Reyhanli, causando um morto e 46 feridos.

A agência indicou que, no domingo, as forças turcas tomaram 11 posições que eram controladas pelas YPG na região de Afrin.

As YPG são o principal componente da coalizão árabe-curda das Forças Democráticas Sírias (FDS), apoiada por Washington na luta contra grupos extremistas, em particular a organização Estado Islâmico (EI).

A Turquia acusa as YPG de serem o braço sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que conduz há 30 anos uma rebelião armada no sudeste da Turquia. Esta é a segunda ofensiva turca no norte da Síria, depois de uma conduzida em agosto de 2016.

Aproveitando o conflito sírio, que deixou mais de 340 mil mortos desde 2011, os curdos sírios - há muito marginalizados - estabeleceram em 2012 uma administração autônoma em Afrin, um território isolado de outras áreas controladas pelas YPG mais a leste. Sobre a operação turca, os curdos acusaram Ancara de apoiar o Estado Islâmico, ao mesmo tempo que pediram o suporte de Washington.

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"Este ataque bárbaro (...) é um apoio claro à organização terrorista" do EI, afirmaram as FDS, advertindo que, "apesar da perda de seus principais redutos, o grupo extremista mantém uma força que não pode ser negligenciada".

Ancara lançou essa ofensiva após a coalizão internacional liderada por Washington anunciar a criação de uma "força de fronteira" composta por combatentes curdos.

Pressão

No domingo, os Estados Unidos pediram à Turquia "moderação", mas o secretário americano da Defesa, Jim Mattis, disse que Ancara havia alertado Washington antes de lançar os ataques.

A França adotou um tom mais firme, exortando Ancara a encerrar sua ofensiva. Paris convocou uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU, que se reunirá a portas fechadas nesta segunda-feira. Já Moscou acusou Washington de encorajar o separatismo dos curdos na Síria.

"Washington incentivou e continua a encorajar os sentimentos separatistas entre os curdos", apontou o ministro turco das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, a repórteres. "É uma falta de compreensão da situação, ou uma provocação absolutamente consciente."

Mortes

De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), 21 pessoas, incluindo seis crianças, foram mortas nos bombardeios turcos desde sábado. Ancara afirmou ter atingido apenas "terroristas" e acusou as YPG de propaganda.

Após Erdogan alertar contra qualquer manifestação da oposição à operação, as autoridades emitiram nesta segunda-feira mandados de prisão contra 35 pessoas suspeitas de "propaganda terrorista" nas redes sociais.

Um promotor de Istambul também lançou uma investigação sobre 57 pessoas suspeitas de "propaganda terrorista" no Twitter em conexão com a operação na Síria, de acordo com a Anadolu.

No domingo, a Polícia turca impediu duas manifestações contra a operação - uma, em Istambul, e a outra, em Diyarbakir. / AFP

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