Mahmud Hams/AFP
Mahmud Hams/AFP

TV árabe incendeia crise entre palestinos

Hamas ataca ''conspiração'' do Fatah com Israel após supostas revelações da Al-Jazira''

Nathalia Watkins, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2011 | 00h00

A divulgação de material diplomático envolvendo supostas negociatas entre palestinos e israelenses fez o grupo islâmico Hamas, que controla a Faixa de Gaza, iniciar ontem uma ampla ofensiva retórica, denunciando a "conspiração do Fatah". A facção do presidente Mahmoud Abbas teria "cooperado secretamente com Israel" nos assuntos "mais essenciais, como Jerusalém e a questão dos refugiados".

A TV Al-Jazira, do Catar, e o jornal The Guardian começaram no domingo a divulgar uma série de reportagens sobre supostos bastidores de negociações entre israelenses e palestinos. As mensagens teriam por base 1.700 telegramas diplomáticos secretos referentes ao diálogo de paz entre 1999 e 2010, e detalhariam como negociadores palestinos submeteram-se a exigências israelenses amplamente condenadas nas ruas de Ramallah e Gaza.

Funcionários da Autoridade Palestina teriam concordado em ceder autoridade sobre a Esplanada das Mesquitas - terceiro local mais sagrado do Islã -, aceitado a existência de assentamentos em terra palestina e abdicado do direito de retorno de parte dos refugiados palestinos.

O porta-voz do Hamas, Sami Abu Zuhri, disse que a reportagem da TV árabe demonstra como a Autoridade Palestina buscou "eliminar a justa causa palestina".

Em Ramallah, partidários do Fatah tentaram invadir um escritório da Al-Jazira e queimaram bandeiras da emissora. O presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas, por sua vez, negou taxativamente ter oferecido concessões secretas a Israel. Após um encontro com o presidente egípcio, Hosni Mubarak, no Cairo, o líder palestino acusou a Al-Jazira de divulgar documentos contendo as posições israelenses como se fossem palestinas.

"O material foi apresentado pela Al-Jazira fora de contexto com o objetivo de chamar a atenção e dificultar a retomada do diálogo de paz", disse ao Estado o diretor do Centro de Mídia da Autoridade Palestina, Ghassam Khatib. Ele acredita que o reconhecimento do Estado palestino nas fronteiras de 1967 por vários países, incluindo o Brasil e Argentina, foi uma "grande conquista" e acusou a Al-Jazira de tentar "desviar a atenção das conquistas do Fatah" com as reportagens.

Plano Lieberman. Em Israel, analistas classificam os documentos como originais. Segundo repórteres do Canal 2, o material teria sido vendido à rede de televisão por um ex-funcionário da Autoridade Palestina e exposto com o objetivo de "destruir a credibilidade" de Abbas. Para Israel, a exigência palestina de parar todas as construções em assentamentos na Cisjordânia perdeu força após a publicação das supostas mensagens secretas.

Apesar de o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, não ter se pronunciado sobre o assunto, o ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, afirmou que a correspondência diplomática comprova que a única solução para o conflito são "fronteiras provisórias". A expressão é a mesma usada em um plano de paz que o chanceler deve apresentar em breve a Netanyahu.

Segundo o jornal Haaretz, o plano de Lieberman propõe a criação de um Estado palestino em cerca de 45% do território da Cisjordânia.

Os supostos documentos secretos aprofundam a divisão entre as facções Fatah e Hamas. Embora muitos palestinos considerem "visível" a relação entre o Hamas e a rede de televisão Al-Jazira, especialistas acreditam que as revelações dinamitam o diálogo de reconciliação nacional.

"O povo palestino está com raiva e sente-se humilhado", explica Khalil Shaheen, editor do jornal Al Ayyam, de Ramallah. "A exposição prejudica a credibilidade do líder palestino no mundo árabe e entre a comunidade internacional."

REVELAÇÕES

Submissão - Mensagens mostrariam como negociadores palestinos cederam a Israel em pontos controvertidos

Guerra anunciada - Israel teria avisado Abbas e líderes árabes antes de invadir Gaza para fragilizar o Hamas

Grã-Bretanha - Inteligência britânica "combateu" o Hamas

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