TV chinesa desculpa-se por causar incêndio

Diretores da emissora estatal contrataram show pirotécnico sem autorização do governo de Pequim; perdas são de US$ 120 milhões

Claudia Trevisan, PEQUIM, O Estadao de S.Paulo

11 de fevereiro de 2009 | 00h00

O incêndio que destruiu na noite de segunda-feira um dos edifícios do complexo que abrigaria a rede estatal de televisão CCTV foi provocado por um show ilegal de fogos de artifício, contratado pela direção da própria emissora, indicou uma investigação das autoridades de Pequim concluída em menos de 12 horas.O fogo consumiu o prédio de 30 andares, provocou a morte de um bombeiro e deixou outras seis pessoas feridas. A rede oficial de televisão divulgou uma nota na qual se desculpou pelo acidente e lamentou "o severo dano causado à propriedade do Estado".Na noite do incêndio, os chineses festejavam com a incessante queima de fogos de artifício o Festival da Lanterna, que marca o fim das festas do ano-novo - iniciadas em 26 de janeiro. De acordo com Luo Yuan, porta-voz do Escritório de Controle de Incêndio, a administração da CCTV contratou uma empresa para colocar "várias centenas" de fogos de artifício no terreno em frente ao edifício incendiado, cuja inauguração deveria ocorrer em maio.Os foguetes utilizados eram muito mais poderosos que os comuns e precisariam de autorização especial da prefeitura de Pequim para serem acessos no perímetro urbano, afirmou porta-voz do Escritório de Controle de Incêndio. "Os donos da propriedade ignoraram a advertência da polícia de que esses tipos de fogos de artifício não são permitidos", ressaltou, referindo-se à administração da CCTV, que é totalmente estatal. O fogo começou às 20h27 no topo do edifício e só foi controlado às 2 horas de ontem. O incêndio provocou prejuízos materiais imensos, em um projeto construído com dinheiro público. O custo de todo o complexo é estimado em algo entre US$ 600 milhões e US$ 700 milhões, dos quais cerca de US$ 120 milhões foram destinados à construção do edifício destruído. NEGLIGÊNCIAComo a investigação indica que o incêndio foi provocado por negligência da empresa proprietária do edifício é pouco provável que o seguro cubra o dano.O prédio seria a sede da Television Cultural Center (TVCC), uma torre de 30 andares onde funcionariam estúdios de gravação, um teatro de 1.500 lugares, cinemas digitais, restaurantes, salão de baile e um hotel cinco-estrelas. O edifício fica a 200 metros da futurista nova sede da CCTV, formada por duas torres inclinadas e conectadas na base e no topo, com um imenso vão livre no centro. Tanto a CCTV quanto a TVCC fazem parte do complexo projetado pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas em parceria com o alemão Olen Scheeren. A intenção do governo chinês era concluir a obra antes da Olimpíada de 2008 e utilizar o prédio incendiado para transmissão da programação da CCTV, mas houve atrasos no cronograma.A empresa de engenharia Arup, responsável por viabilizar tecnicamente o projeto, divulgou nota ontem na qual afirma ser muito cedo para determinar a extensão dos danos causados pelo incêndio à estrutura do prédio. O complexo tem uma área total construída de 560 mil metros quadrados, dos quais 120 mil metros quadrados são do edifício destruído ontem. Internautas chineses inundaram sites de discussão online com mensagens iradas de protesto contra o desperdício de dinheiro público usado no prédio destruído."Bilhões do dinheiro dos contribuintes foram embora com as chamas. Quem deve ser responsável pela perda?", escreveu o internauta "Assassino Perdido" no site douban.com. Alguns comentários lamentavam o fato de o incêndio não ter atingido o prédio vizinho, onde funcionará a sede da CCTV. A estrutura formada por duas torres inclinadas nunca contou com a aprovação unânime dos moradores de Pequim e ganhou o apelido de "cueca de ferro" por causa de seu formato. Na noite de ontem, muitos dos comentários críticos que haviam sido colocados por internautas durante o dia em sites de discussão foram apagados pelos censores do governo chinês.

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