TV pública japonesa perde processo envolvendo atual premier

A emissora pública japonesa NHK modificou um programa sobre o falecido imperador Hirohito depois da interferência do atual primeiro-ministro Shinzo Abe, segundo sentença proferida na segunda-feira pelo Superior Tribunal de Tóquio. Abe, na época subchefe de gabinete do governo, disse ter se reunido com executivos da NHK para pedir que eles fossem "justos" num programa que mostrava um julgamento simbólico, feito em dezembro de 2000, que considerava Hirohito culpado por crimes contra a humanidade durante a Segunda Guerra Mundial. A NHK exibiu o programa, mas sem o trecho do julgamento realizado por várias ONGs, entre elas a Violência contra a Mulher na Guerra - Rede do Japão, que processou a emissora por não informar antecipadamente sobre as alterações. O tribunal ordenou que a NHK e duas produtoras paguem 2 milhões de ienes (16,4 mil dólares) à ONG, que pediu 20 vezes esse valor. Abe nega ter pressionado a NHK, e a emissora disse ter feito as alterações por conta própria. A sentença de primeira instância havia sido favorável ao canal público. A sentença de segunda-feira concluiu que a NHK fez as mudanças em consideração a Abe e a outros políticos governistas, mas afirma não haver provas de que parlamentares deram instruções específicas sobre o programa. A NHK se financia com uma taxa paga pelos espectadores, e não com verbas públicas, mas seu orçamento precisa de aprovação parlamentar, o que provoca frequentes suspeitas quanto à sua isenção. A ONG Violência contra a Mulher na Guerra organizou o falso julgamento para pressionar o governo a indenizar mulheres que eram escravizadas para servir sexualmente às tropas japonesas durante a Segunda Guerra. Rumiko Nishino, uma das presidentes da entidade feminina, se disse "surpresa e transbordante de alegria" com a sentença, mesmo com uma indenização bem aquém da pleiteada. A NHK qualificou a sentença de "injusta" e prometeu recorrer. "Editamos (o programa) sob um ponto de vista justo e para deixar claras as muitas visões diferentes sobre a questão, de modo que o julgamento da corte é injusto e absolutamente não podemos aceitá-lo", disse a rede em nota. O primeiro-ministro disse que a sentença de segunda-feira mostra que os políticos, ele inclusive, não pressionam a emissora pública. "Ficou claro pela sentença que os políticos não intervieram", afirmou ele a jornalistas. Abe já provocou polêmicas anteriores por comentários sobre a atuação do Japão na guerra, inclusive com questionamentos ao envolvimento do governo e dos militares na manutenção de bordéis para soldados. Mas, desde setembro, quando assumiu a chefia de governo, Abe vem se mostrando mais moderado em seus comentários históricos, o que ajuda numa aproximação diplomática com China e Coréia do Sul, dois países que foram vítimas das agressões bélicas japonesas.

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