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TV síria edita imagens de Hama em ruínas para vender ''fim de rebelião''

Moradores relatam cenas de massacre, com atiradores à paisana abatendo civis aleatoriamente nas ruas, tanques passando por cima de motocicletas e famílias enterrando as vítimas nos jardins para evitar o risco de uma caminhada até o cemitério da cidade

Reuters, AP e Nyt, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

O governo da Síria fez de tudo ontem para mostrar que esmagou a rebelião em Hama, epicentro dos últimos protestos contra o presidente Bashar Assad. A TV estatal mostrou imagens da cidade com prédios queimados, barricadas destruídas e as ruas desertas. Mas a primeira sexta-feira do Ramadã foi violenta em todo o país. Forças de segurança reprimiram dissidentes e pelo menos 15 pessoas morreram.

O número de mortos é inferior ao de outras sextas-feiras - principal dia de oração do Islã - em razão do início do Ramadã, mês em que os muçulmanos realizam um jejum da alvorada ao pôr do sol. O recente cerco a Hama começou no domingo, quando Assad enviou tanques e franco-atiradores para a cidade.

Sitiada, a população de Hama, advertiu que os suprimentos médicos estão no fim e a maior parte da comida estragou, após seis dias sem eletricidade. Não há internet ou telefones nem uma contagem oficial de mortos.

A Associated Press, citando moradores que conseguiram se comunicar pelo celular, informou que 250 pessoas morreram na cidade desde domingo. Organizações de defesa dos direitos humanos, especializadas em checar o número de vítimas em conflitos, estimam que, apenas na quarta-feira, pelo menos 30 pessoas foram mortas em Hama.

Solidariedade. Como os jornalistas internacionais estão proibidos de entrar na cidade sitiada e as informações dos hospitais permanecem restritas, é impossível verificar a exatidão dos números. Testemunhas, no entanto, contam que há atiradores à paisana executando aleatoriamente civis nas ruas de Hama. "As pessoas estão sendo abatidas como ovelhas enquanto caminham pelas ruas", afirmou à Associated Press um morador apavorado que pediu anonimato. "Vi com os meus olhos um tanque passar por cima de um jovem que carregava verduras em uma motocicleta."

Em razão do terror, famílias estariam enterrando suas vítimas nos quintais e jardins de casa, por causa do risco que se tornou uma caminhada até o cemitério.

Ontem, em todo o país, dezenas de milhares de manifestantes marcharam por diferentes cidades cantando em solidariedade a Hama e exigindo a renúncia do presidente Assad. As forças de segurança reagiram com violência e abriram fogo. A maior parte das mortes ocorreu nos subúrbios de Damasco, onde sete pessoas foram baleadas pela polícia.

Marchas. Distúrbios também foram registrados em Deraa (sul), Deir el-Zour (oeste), Al-Qamishli, fronteira com a Turquia, e em Homs (centro). "Hama, estamos com você até a morte", gritava uma multidão durante marcha em Damasco, onde até bem pouco tempo eram raros os protestos contra o regime.

Muitos moradores que conseguiram fugir de Hama disseram que a situação é pior do que em 1982, quando o então presidente Hafez Assad, pai de Bashar, atacou a cidade para esmagar uma rebelião sunita contra o governo, deixando pelo menos 20 mil mortos.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, responsabilizou o regime sírio pela morte de mais de 2 mil civis desde março, quando começou a repressão de Assad contra os manifestantes.

"Achamos que até hoje o governo é responsável pelas mortes de mais de 2 mil pessoas de todas as idades", afirmou Hillary em entrevista na quinta-feira à noite após encontro com o chanceler do Canadá, John Baird.

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