UCR ficará fora da presidência durante décadas

Saques a supermercados, caos social, mortes e uma espiral hiperinflacionária. Assim terminou o governo do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-89). Falta de apoio político no Congresso Nacional, acusações de lerdeza em suas decisões. Assim terminou o governo do ex-presidente Arturo Illía (1963-66). Acusações de corrupção entre seus ministros e parentes, desemprego crescente, falências de empresas. Assim terminou o governo de Hipólito Yrigoyen (1928-30).Todos estes homens de trágico destino possuem um ponto em comum: foram políticos da União Cívica Radical (UCR) e presidentes da República. À esta lista soma-se Fernando de la Rúa, que na quinta-feira terminou seu governo poucos dias depois de completar metade de seu mandato, no meio do caos social e financeiro.A "maldição" da UCR só não atingiu Yrigoyen em seu primeiro mandato (1916-22) e Marcelo T. de Alvear (1922-28). Ao longo do século, o partido sofreu constantes golpes, mas sempre resistia firme. No entanto, a queda de De la Rúa poderia ser um golpe quase mortal, que impediria que durante décadas a UCR conseguisse chegar de novo ao poder presidencial.O "azar" dos presidentes da UCR foi destacado hoje pelo presidente provisório, Ramón Puerta: "parece um malefício que os presidentes desse partido nunca completem seu mandato". Puerta pertence ao Partido Justicialista (Peronista), eterno rival da UCR.A escritora Silvina Walger, uma ácida cronista da vida política nativa, disse à Agência Estado que "nunca mais" a UCR ocupará "el sillón de Rivadavia", como é conhecida a cadeira presidencial.Para um dos principais analistas políticos do país, Rosendo Fraga, "a curto prazo a UCR terá um desgaste enorme, como teve na época da hiperinflação. Suas chances eleitorais, em breve, são mínimas".O analista disse à AE que depois do fim fracassado de 1989, quando Alfonsín teve que renunciar seis meses antes do fim do mandato, a UCR entrou em um rápido declínio, que se evidenciou nas eleições presidenciais de 1995, quando obteve o esquálido resultado de 17% dos votos, o que colocou o partido - pela primeira vez em sua centenária História - em terceiro lugar.Dessa derrota somente recuperou-se com a associação que fez com a centro-esquerdista Frepaso em 1997, que lhe conferiu ares de renovação, conseguindo assim, vencer as eleições presidenciais de 1999.Para Fraga, a grande dúvida é se a UCR poderá alguma vez no futuro constituir-se no partido que ocupe a Casa Rosada: "a saída de De la Rúa confirma a UCR como um fracasso como partido de governo. Possivelmente confirme sua identidade histórica como partido da oposição, papel que sempre interpretou bem".O analista sustenta que a UCR "poderia ser destes partidos que as pessoas votam para ser oposição nas eleições parlamentares, mas não para governar, como o PMDB no Brasil". Segundo Fraga, os dois anos de governo De la Rúa "parecem um breve intervalo entre dois governos peronistas".Para a deputada do Argentinos por uma República Igualitária (ARI), Elisa Carrió: "como força histórica, a UCR não desaparece. Mas como força moral, sim". A senadora peronista Cristina Kirchner disparou: "quem vai querer colocar um voto para a UCR daqui a alguns meses?"Um deputado da UCR, que preferiu falar em off, comentou: "afundamos de vez. ´Chupete´ (apelido de De la Rúa) conseguiu arrasar o partido em dois anos de governo. Para muitas coisas ele é lerdo. Mas para nos levar ao fundo do poço foi rápido".No momento, a UCR conta com 67 deputados (a Câmara possui um total de 257) e 22 senadores (o Senado possui um total de 72). Desde a volta da democracia em 1983, nunca conseguiu a maioria no Senado. A UCR só teve maioria na Câmara de Deputados entre 1983 e 1987.O próprio De la Rúa nunca concluiu um mandato. Eleito senador em 1973, perdeu o cargo por causa do golpe militar de 1976. Em 1983 foi eleito deputado, mas deixou o cargo no meio do mandato para ser candidato ao Senado. Este posto foi abandonado em 1996 para assumir a prefeitura de Buenos Aires. De la Rúa também deixou este cargo para eleger-se como presidente da República em 1999.De la Rúa tornou-se o oitavo presidente argentino a renunciar.Leia o especial

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