Ucrânia: a paixão europeia

Os desanimados com a União Europeia deveriam ir à Ucrânia ver como o projeto europeu inspira uma enorme esperança em milhões de ucranianos que veem numa Europa unida a única garantia de sobrevivência da soberania e da liberdade que conquistaram com a heroica revolta da Praça Maidan e hoje são ameaçados pela Rússia de Putin, empenhado na reconstituição do império soviético (embora não o chame assim). Veriam também a serenidade de uma sociedade invadida por uma potência que já se apoderou de um quinto do território ucraniano e cujas fronteiras orientais, onde morrem diariamente mais voluntários do que sugerem as estatísticas oficiais, continuam a ser violadas por centenas de blindados e milhares de soldados russos.

MARIO VARGAS LLOSA, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2014 | 02h03

"Duzentos tanques somente nos últimos dois dias e, com eles, mais de dois mil militares, sem uniformes", foi o que me disse o presidente Petro Poroshenko na Ucrânia. "A Rússia não respeitou um único dia o acordo de paz que firmamos. Mas a invasão russa serviu para nos unir. Hoje, 80% dos habitantes do país rejeitam a intervenção e estão dispostos a lutar."

Poroshenko expressa-se com muita calma, num inglês cuidadoso - é um industrial próspero, robusto e amável e todo o mundo conhece suas fábricas de chocolate -, e está convencido de que Europa e EUA não permitirão a ocupação do seu país.

Comenta-se que existem divergências entre o presidente e seu primeiro-ministro, Arseni Yatseniuk, pois o premiê seria mais radical. Conversando com ambos, separadamente, não as percebi. Os dois acreditam que a agressão russa continuará e, para Putin, esse é o primeiro passo do seu desafio ao sistema democrático ocidental, que considera um adversário principal da Rússia e da ordem autoritária e imperial que preside. Creem ainda que, nas atuais circunstâncias, o líder russo sente-se encorajado diante da impunidade com que criou os enclaves pró-russos da Geórgia - Abkházia e Ossétia do Sul -, apoderando-se da Crimeia e impondo uma humilhação ao presidente Obama na Síria.

Poroshenko e Yatseniuk são diferentes nesse aspecto: o prermiê, um homem público excepcional, não tenta ser simpático com seu interlocutor e se expressa com uma franqueza dura. Magro, calvo e usando óculos com lentes grossas, ele é, poderíamos dizer, um asceta. Economista famoso, dirigiu o Banco Central, foi ministro da Economia e raramente sorri. "Não sou pessimista, mas realista", afirma. "Os czares, Lenin e Stalin quiseram acabar conosco. Agora todos eles estão mortos e a Ucrânia continua viva. O que devemos fazer, apesar da desigualdade de forças com a Rússia? Lutar, não existe outra alternativa."

Na sua opinião, se a Ucrânia cair, as próximas vítimas serão os Países Bálticos, a Polônia e as outras antigas "democracias populares". "Putin não recuará, ele seria morto na Rússia. Ele incutiu na mente do seu povo que tudo isso é um complô da CIA e dos EUA. E agora os russos acreditam nisso e estão dispostos a arcar com todas as sanções econômicas impostas pelo mundo democrático." As sanções vêm afetando seriamente a economia russa, mas Yatseniuk não acredita que isso aplacará a vocação imperialista de Putin.

Chegaram à cidade de Dnipropetrovsk, que nas duas margens do Rio Dnieper, mais de 40 mil refugiados das províncias orientais. O prefeito disse-me que aguarda mais 40 mil nas próximas semanas. Embora seja difícil avaliar a quantidade de pessoas que estão migrando em razão da guerra, o número de ucranianos que abandonaram cidades e vilarejos da fronteira deve passar de 1 milhão.

Na enorme Praça Maidan há fotos de todos os que morreram nos protestos. Conversei com vários líderes da revolta e a pessoa que mais me impressionou foi Dimitri Bulatov. Ele organizou as carreatas que compunham manifestações pacíficas diante das casas dos figurões do regime e era o responsável pelas comunicações dos rebeldes. Quando os protestos começaram Dimitri foi sequestrado por indivíduos que - ele supõe - pertenciam às forças do governo. Durante oito dias foi torturado: mutilaram seu rosto, cortaram metade da sua orelha e finalmente o crucificaram. Seus algozes queriam que ele confessasse que os protestos eram financiados pela CIA. "Confessei todos os disparates, mas, ainda assim, tinha certeza que me matariam." Mas no oitavo dia, misteriosamente, seus captores desapareceram. Hoje ele é ministro da Juventude e Esportes. Jovem e afável, exibe sem o menor incômodo a orelha cortada, a grande cicatriz no rosto e as mãos trituradas. E falou comigo com uma riqueza de detalhes sobre os esforços que ele e seus colegas têm empreendido para pôr fim à corrupção, ainda grande nos meios oficiais.

O Exército ucraniano que luta contra os russos praticamente renasceu do nada. É formado em parte por voluntários e diante da precariedade de recursos com que conta o governo, sua existência se deve em grande parte ao apoio da população.

O único escritor ucraniano que li, Mikhail Bulgákov, se sentiria orgulhoso da resistência e do heroísmo de seus compatriotas. Ele foi vítima de Stalin e do regime comunista, que censurou quase todos os seus livros. Sua obra-prima, O Mestre e Margarita, foi publicado apenas nos anos 70, muito depois da sua morte. Em vez de enviá-lo para o Gulag, Stalin decidiu dar-lhe um emprego miserável no mesmo teatro onde foram encenadas suas peças de maior sucesso, para que ele morresse aos poucos de nostalgia e frustração.

Fui visitar sua casa transformada em museu na bela costa de San Andrés, onde há uma bonita igreja ortodoxa, pintores de rua e quiosques cheios de camisetas com insultos contra Putin e rolos de papel higiênico com seu rosto impresso. A casa do escritor é bem cuidada, branca, repleta de ícones e ali estão seus cadernos de estudante de medicina, seu diploma, seus livros que foram publicados postumamente. Visitar essa casa, esse país, mesmo que apenas por cinco dias, me entristeceu, me alegrou e me enfureceu. Uma vista tão breve deixa a sua mente repleta de imagens confusas e sentimentos exaltados. Mas de uma coisa estou seguro: os ucranianos hoje são livres e será muito difícil para Putin arrancar deles essa liberdade. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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