AP Photo/Zoya Shu
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Ucrânia abre novo capítulo de sua história após eleição de comediante como presidente

Com resultados praticamente definitivos das urnas, Volodmir Zelenski recebeu 73,1% dos votos contra 24,5% do presidente Petro Poroshenko; líderes europeus o felicitam pelo resultado e dizem esperar estabilização do país

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2019 | 11h40

KIEV - A Ucrânia iniciou nesta segunda-feira, 22, um novo capítulo de sua história após a vitória do comediante Volodmir Zelenski nas eleições presidenciais de domingo, que agora terá que enfrentar a corrupção, os problemas econômicos e a guerra no leste do país.

Apesar das dúvidas sobre sua capacidade de governar, Zelenski, um ator e humorista famoso de 41 anos, recebeu 73,1% dos votos no segundo turno, contra 24,5% do presidente Petro Poroshenko, de acordo com os resultados praticamente definitivos.

Ele será o sexto e mais jovem presidente da Ucrânia desde a independência do país, em 1991. Zelenski recebeu felicitações de vários governantes, incluindo do presidente americano Donald Trump e do francês Emmanuel Macron.

Seu programa de governo não é muito preciso, apesar da promessa de seguir o rumo pró-Ocidente adotado pelo país desde 2014. Sem maioria no Parlamento, porém, a vida de Zelenski não será fácil. A cerimônia de posse está prevista para junho.

"As pessoas mostraram que queriam algo novo, mudanças", disse Karina, de 28 anos, em Kiev nesta segunda-feira. Ela disse que ficou "agradavelmente surpresa" com Petro Poroshenko, que reconheceu rapidamente a derrota.

"Pensava que aconteceriam fraudes, que tentaria por todos os meios permanecer no poder. E tivemos as eleições mais honestas da história da Ucrânia", afirmou.

Observadores internacionais devem entregar nas próximas horas o relatório sobre o segundo turno, mas o primeiro já foi considerado exemplar, em um país que registrou duas revoluções em menos de três décadas de independência.

Em uma carta conjunta dirigida a Zelenski, os presidentes do Conselho Europeu, Donald Tusk, e da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, destacaram o "forte apego à democracia e ao estado de direito que o povo da Ucrânia demonstraram ao longo de todo processo eleitoral".

A chanceler alemã, Angela Merkel, felicitou o novo presidente e disse esperar a "estabilização da Ucrânia e a resolução pacífica do conflito (no leste do país)".

A ampla vitória de Zelenski demonstra a rejeição dos ucranianos aos políticos veteranos como Poroshenko, de 53 anos, que aproximou o país do Ocidente mas foi incapaz de melhorar o nível de vida no país, um dos mais pobres da Europa.

Poroshenko não conseguiu acabar com a guerra com os separatistas pró-Rússia, que deixou 13 mil mortos em cinco anos, nem reduzir a corrupção.

Volodimir Zelenski terá que formar uma equipe de governo e tomar decisões apesar de não contar com a maioria parlamentar. As eleições legislativas estão previstas para 27 de outubro, o que anuncia um período de instabilidade política.

"Gosto de Zelenski, é jovem, bom, mas tenho medo de que não aguente por muito tempo, que seja devorado", afirmou Viktoria, uma aposentada de 79 anos. "Ainda não sabe até que ponto nossa política se parece com uma alcateia de lobos".

A chegada de um político pró-Ocidente ao poder em 2014 foi seguida pela anexação da península ucraniana da Crimeia pela Rússia e por uma guerra no leste do país com os separatistas pró-Moscou, que segundo Kiev e as potências ocidentais recebem apoio russo, o que o Kremlin nega.

A crise contribuiu para a grave tensão entre a Rússia e o Ocidente, com direito a sanções mútuas.

O primeiro-ministro russo Dmitri Medvedev afirmou esperar que a vitória de Zelenski represente uma "oportunidade para melhorar" as relações bilaterais, mas destacou que não tem "ilusões".

O Kremlin considerou que "é muito cedo" para determinar se é possível trabalhar com o novo presidente ucraniano.

A Rússia anunciou na semana passada a intenção de proibir as exportações de petróleo e carvão à Ucrânia a partir de 1 junho. Zelenski declarou no domingo que espera retomar o processo de paz com Moscou. / AFP

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