Ucrânia e o voto de 25 de maio

Uma eleição limpa que aproxime Kiev da Europa é a meta dos EUA e o pesadelo de Putin

THOMAS L., FRIEDMAN , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2014 | 02h03

A palavra "maidan" significa "praça" em ucraniano e em árabe. E a "Maidan Independência" de Kiev, como a "Maidan Tahrir" do Cairo, foi palco de uma explosão admirável de aspirações democráticas.

As barricadas de paralelepípedos, pneus, vigas de madeira e carros queimados empilhados por revolucionários ucranianos ainda estão erguidas. Aliás, aquilo lembra o cenário de Os Miseráveis e pessoas ainda depositam flores frescas nos sacrários improvisados para as mais de 100 pessoas mortas pelo antigo e agora deposto regime. Ao caminhar por ali, porém, tentei explicar ao meu anfitrião que, apesar de eu estar extremamente impressionado, muitos americanos mostram hoje um "Cansaço de Maidan" - demasiadas esperanças frustradas de democracia em demasiadas praças - do Afeganistão ao Irã, do Iraque ao Egito, da Síria à Líbia.

Superem isso, dizem-me os ucranianos. Nossa revolução é diferente. Aqui há raízes democráticas reais, instituições da sociedade civil reais e o ímã da União Europeia na porta ao lado. Com um pouco de ajuda, podemos conseguir.

Quanto mais aprendo aqui, mais penso que eles estão certos. Algo de muitas consequências ocorreu nesse país. Aliás, creio que o futuro da Ucrânia é um dos desafios de política externa mais importantes da presidência de Barack Obama, porque determinará o futuro não só da Ucrânia, mas da Rússia.

Teria sido ótimo se conseguíssemos forjar um acordo com o presidente Vladimir Putin, da Rússia, que permitisse à Ucrânia se unir gradualmente à União Europeia sem ameaçá-lo. Obama tentou encontrar essa fórmula em que todos saem ganhando. Mas Putin não aceitou esse jogo. Ele está num jogo em que há ganhadores e perdedores. Por isso ele deve perder, pelo bem da Ucrânia e da Rússia.

Não será fácil. Os EUA e seus aliados europeus terão de superar o próprio cansaço. Os ucranianos terão de se unir mais do que nunca. O primeiro teste virá em 25 de maio, quando a Ucrânia terá eleições presidenciais. Putin está trabalhando para impedir ou desacreditar essa votação, bombardeando a Ucrânia oriental mais favorável à Rússia com propaganda de que o movimento Maidan foi liderado por "fascistas" e usando seus agentes e arruaceiros locais mascarados para manter a região tumultuada para poucos irem votar. O trabalho dos EUA é conter Putin para que as eleições possam ocorrer.

Isso pode requerer mais sanções nesse momento. O trabalho dos ucranianos é assegurar que as eleições sejam relevantes com a escolha de uma pessoa digna, inclusiva, que trabalhe para garantir a unidade da Ucrânia e a eliminação de sua corrupção. Os EUA poderão dissuadir Putin, mas somente os ucranianos podem questionar sua legitimidade. Se uma maioria votar numa eleição livre pela aproximação com a Europa e o afastamento de Moscou, Putin terá um problema real. Será uma forte rejeição a sua visão enviesada, vinda da casa vizinha.

Daria Marchak, uma jovem repórter de negócios daqui, me explicou por que os ucranianos jovens estão tão ansiosos pela adesão à UE. "Até 2011, havia aqui uma sensação de melhoria", disse ela. Mas o último governo foi tão corrupto, numa escala industrial, que as pessoas sentiram "estar andando para trás". E aí, quando o antigo governo disse que estava abandonando a ideia de aproximação da União Europeia para se unir à falsa União Eurasiana de Putin, foi a gota d'água. "As pessoas sentiam que se nos uníssemos à união alfandegária de Putin, o sistema corrupto daqui seria consolidado para sempre", disse Marchak. Os jovens não teriam futuro.

Seu desespero pela união à UE é a esperança de que isso leve ao que eu chamo de 'globalução'- uma revolução vinda de fora -, que a UE imporá padrões de transparência aos políticos da Ucrânia que os jovens daqui simplesmente não conseguem impor. A UE "será o instrumento da mudança", disse ela.

Mas para a Ucrânia se unir e se aproximar da UE será preciso um presidente com uma visão inclusiva da integração do leste e do oeste desse país, disse Oleh Levchenko, um ativista político da Maidan. "O maior problema que tempos hoje é a falta da mensagem certa - uma mensagem que possa unir leste e oeste", disse. "Portanto, o problema não é Putin. É a nossa incapacidade. Ninguém traça uma visão unificadora do futuro."

Na verdade, a Ucrânia tem alguma "doença de Praça Tahrir". Os revolucionários de Kiev foram incrivelmente corajosos. Mas, como no Egito, eles ainda não traduziram suas aspirações - para um futuro inclusivo, não corrupto, pró-UE - em seus próprios partidos políticos ou candidatos nacionais que possam vencer eleições e governar. Assim, velhos oligarcas estão preenchendo o vazio. Alguns são realmente decentes, mas a Ucrânia tem de fazer melhor do que isso.

Olena Litvishko, da Iniciativa Ucraniana de Protesto Pacífico, me disse que o que a revolução Maidan fez foi elevar "uma camada de sociedade civil e negócios que tem a energia para mudar, mas não os instrumentos para mudar". Eles não têm partidos políticos de verdade com uma agenda ampla compartilhada. "Eles não conhecem seus direitos e nossos políticos não querem que conheçam."

Em suma, foram ucranianos corajosos que originaram seu próprio movimento por uma democracia limpa, porque estavam fartos. Mas Putin não pode viver com uma democracia bem-sucedida olhando para o Ocidente aqui e os jovens ucranianos não podem viver sem ela. Portanto, para que ela prospere, os EUA precisam cuidar para que Putin não a mate no berço. E eles precisam cuidar que seus políticos da velha-guarda não a matem antes que ela aprenda a andar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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