SERGEI SUPINSKY / AFP
SERGEI SUPINSKY / AFP

Ucrânia indica que pode desistir da Otan diante de aumento da pressão militar russa na fronteira

Nas últimas horas, o Pentágono informou ter registrado o movimento de helicópteros russos perto da fronteira e a entrada de mercenários em território ucraniano

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 16h53
Atualizado 14 de fevereiro de 2022 | 17h38

KIEV - Pressionado pelo aumento da presença militar russa em suas fronteiras, o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, deu nesta segunda-feira, 14, sinais de que seu país pode desistir de aderir à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - uma das principais reivindicações do Kremlin em meio à tensão entre os dois países.

  Nas últimas horas, o Pentágono informou ter registrado o movimento de helicópteros russos perto da fronteira e a entrada de mercenários em território ucraniano. O Departamento de Estado decidiu hoje transferir a embaixada americana de Kiev para o interior do país. 

A entrada da Ucrânia na Otan – uma aspiração inscrita até mesmo na constituição do país – é considerada uma ameaça existencial pela Rússia, e o motivo da atual crise.

Ao lado do chanceler alemão, Olaf Scholz, Zelenski disse que a questão de ter acesso aberto à Otan seja não mais que um sonho. As declarações do presidente se seguem à entrevista do embaixador ucraniano em Londres, Vadym Prystaiko, à BBC, no domingo, quando ele também declarou que a Ucrânia poderia desistir da adesão, caso isso impedisse um conflito. 

“Podemos desistir (da Otan), até mesmo porque estamos sendo pressionados e chantegeados para isso”, disse o diplomata. “Estamos sendo flexíveis para encontrar a melhor maneira de sair disso.”

Cercado por tropas russas em suas fronteiras norte, leste e no Mar Negro, e com os principais aliados ocidentais reticentes a ajudá-lo em um conflito com a Rússia, Zelenski reconheceu estar em uma situação difícil.  “Por quanto tempo a Ucrânia deve seguir nesse caminho?Quem irá nos ajudar?”, questionou Zelenski.

Para Entender

Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

Desde dezembro, o governo ucraniano tem perseguido discretamente negociações que levem a algum tipo de neutralidade com a Rússia, especialmente no conflito com forças separatistas no leste do país, que são apoiadas pelo Kremlin. Em público, no entanto, autoridades ucranianas negam quaisquer concessões. 

Pouco depois da entrevista, a chancelaria ucraniana apressou-se em retificar as declarações de Prystaiko, dizendo que elas tinham sido tiradas de contexto, mas a entrevista de Zelenski volta a apontar para uma negociação tácita na qual a Ucrânia possa desistir da Otan. 

Rússia reage positivamente

As declarações recentes das autoridades ucranianas foram bem recebidas no Kremlin, onde o porta-voz Dmitri Peskov elogiou as declarações de Prystaiko. “Claramente, se a Ucrânia confirmar a rejeição a entrada na Otan, seria um passo que facilitaria uma resposta melhor aos anseios russos”, declarou.

Pouco depois disso, o chanceler russo, Serguei Lavrov, principal conselheiro de política externa de Vladimir Putin, recomendou nesta segunda-feira, 14, que o presidente mantenha aberta a via diplomática para negociar uma saída para a crise da Ucrânia, apesar das respostas negativas do Ocidente às demandas de Moscou.

"Devo dizer que existe a possibilidade" de "resolver os problemas que precisam ser resolvidos", disse Lavrov durante uma conversa com Putin, transmitida pela televisão.

De acordo com o diplomata, o caminho do diálogo "não se esgotou, mas também não pode durar indefinidamente", acrescentou, enfatizando que a Rússia está pronta para "ouvir contrapropostas sérias".

Diplomacia alemã

Em meio a temores de que o tempo para encontrar uma saída diplomática e impedir uma ação militar da Rússia contra a Ucrânia está prestes a se esgotar, o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, pretende usar a sua viagem a Moscou, nesta terça-feira, para pressionar Vladimir Putin a não atacar o país vizinho.

"Esperamos de Moscou sinais imediatos de desescalada. Uma nova agressão militar teria duras consequências para a Rússia", afirmou ele no Twitter. Scholz classificou a situação como "muito, muito grave".

 

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