Ucrânia luta por soberania e contra oligarcas

Vítimas da Doutrina Brejnev durante domínio soviético, manifestantes exigem fim dos poderes da oligarquia pró-Rússia

Andrei Netto, Enviado especial a Kiev

08 de fevereiro de 2014 | 17h16

Todas as tardes, na frente de um palco montado na Praça da Independência, em Kiev, capital da Ucrânia, milhares de manifestantes se reagrupam e cantam em uníssono, ao final dos discursos políticos de oposição ao presidente Viktor Yanukovich: "Slava Ukraini!" - "Glória à Ucrânia!". O grito de guerra, lema do movimento Euromaidan, foi extraído do hino nacional, cujo título afirma: "A Ucrânia ainda não morreu".

A julgar pelo sucesso da mobilização social pela adesão à União Europeia e contra o governo, tido como pró-Rússia, uma nova Ucrânia está, na realidade, prestes a nascer. Isso ocorre porque, por trás dos protestos que exigem a assinatura do acordo de associação comercial do país com o bloco europeu, os manifestantes trazem consigo a convicção de que é preciso construir uma nova nação.

Independentes desde 1991, os ucranianos agora lutam por mais soberania em relação à Rússia e aos oligarcas do poder. Segundo maior país da Europa em superfície, a Ucrânia esteve sob forte influência de Moscou durante o período soviético.

Nessa época, vigorava a Doutrina Brejnev - política externa da União Soviética segundo a qual países do bloco socialista não poderiam abandonar o Pacto de Varsóvia. Em agosto de 1991, 90,5% da população confirmou, em referendo, a independência, em meio ao desmoronamento do império soviético.

Após quase 23 anos, a população ucraniana está mais uma vez nas ruas, agora para reivindicar mais distância da Rússia, de Vladimir Putin, e também mais poder frente aos oligarcas que governaram o país nas últimas duas décadas.

Centenas de pessoas passam as noites em barracas de campanha montadas a céu aberto, com uma temperatura que de madrugada pode chegar a 20ºC negativos. Ali, dormem, alimentam-se, tomam banho, participam de comícios políticos, de orações e, sempre que necessário, mobilizam-se para defender a praça do risco de invasão pelas forças de ordem, patrulhando barricadas ao longo das madrugadas.

Dentro das barracas, protegidas por militantes de extrema direita em trajes militares e armados de bastões, estão ucranianos comuns, das mais variadas classes sociais e faixas etárias.

Um deles é o programador de computadores Andri Meakovisk. Aos 24 anos, Andrew, como prefere ser chamado, é um dos ativistas com discurso mais fervoroso em favor da adesão à União Europeia e contra o autoritarismo de Yanukovich.

"Estamos lutando por mudança do sistema. Não queremos apenas mudar nomes no governo, mas transformar o sistema", afirma Meakovisk, reclamando dos oligarcas que, segundo ele, atrapalham o desenvolvimento do país. "Queremos mudar a Constituição, a Justiça, a polícia, os rumos econômicos. Temos muitos experts que sabem o que fazer, mas não há modo de implementar as mudanças."

Para Maxim, de 28 anos, outro trabalhador da indústria de informática, a divisão entre o oeste do país, pró-Europa, e o leste, pró-Rússia, é uma leitura errada da crise política. "Não acredito que haja divisões entre pessoas de diferentes regiões da Ucrânia", argumenta, destacando a união entre seus compatriotas em favor de um país mais democrático. "Em Maidan, há pessoas de Kiev, de Lviv, de Odessa e até da Crimeia. Nós não estamos divididos, mas juntos contra o mal e a injustiça."

Esse discurso de união nacional e luta contra um sistema considerado corrupto e injusto, do qual Yanukovich é um símbolo, também é percebido por estrangeiros que vivem em Kiev. Depois de vivenciar os protestos na Praça Taksim, em Istambul, em junho de 2013, Cihan Polat, de 35 anos, engenheiro alemão de origem turca que vive na capital ucraniana, vê mais do que um simples protesto.

"Aqui, há os nacionalistas fazendo barulho, caminhando mascarados e com porretes nas mãos. No entanto, em alguns sentidos, é um movimento até mais democrático do que o da Turquia", afirma. "As pessoas com quem me relaciono falam o tempo todo em democracia, liberdade e direitos iguais."

Para analistas políticos ouvidos pelo Estado, a resistência na Praça da Independência não deixa dúvidas: não se trata mais de apenas um não à Rússia de Putin, mas de um grito de soberania popular e de luta contra o autoritarismo de oligarcas como Yanukovich. "A Ucrânia é soberana", afirma o filósofo Constantin Sigov, professor da Universidade Kiev-Mohyla. "Sua soberania, porém, precisa ser defendida pelos ucranianos."

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