EFE/EPA/SERGEY DOLZHENKO
EFE/EPA/SERGEY DOLZHENKO

Sob ameaça de invasão russa, Ucrânia decreta estado de emergência e mobiliza tropas e reservistas

Também foi aprovada lei para permitir que pessoas carreguem armas de fogo para defesa pessoal; país m pediu que cidadãos deixem a Rússia 'imediatamente'

Eduardo Gayer / Enviado Especial, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 07h43
Atualizado 23 de fevereiro de 2022 | 20h34

KIEV - O governo da Ucrânia decretou estado de emergência com validade de 30 dias a partir da zero hora de quinta-feira, 24, em resposta ao aumento de tensões com a Rússia. O temor de um conflito na região ganhou contornos mais graves com o pedido de rebeldes dos enclaves de Donetsk e Luhansk de auxílio militar à Rússia. Segundo o governo americano, tanques russos estão em posição de ataque na fronteira. 

Aprovado pelo Parlamento, o decreto prevê toque de recolher, mobilização de reservistas e veto a reuniões em público. Também foi aprovada lei para permitir que as pessoas carreguem armas de fogo para defesa pessoal.

As ruas de Kiev não reagiram imediatamente ao anúncio do estado de emergência, e seguiram o ritmo de normalidade apesar da tensão, como registrado nas horas anteriores. Isso, porém, não quer dizer apatia – a população a cada dia mais trabalha com a possibilidade de guerra. “Frente a qualquer ameaça, mobiliza-se a resistência. Está no sangue dos ucranianos”, explicou ao Estadão em Kiev a professora e ex-diplomata Larysa Myronenko.

Entre os reservistas convocados pelo governo está o embaixador da Ucrânia no Brasil, Rostyslav Tronenko, que atualmente está no país. “Estamos prontos para pegar em armas e defender nossa pátria. Faremos com calma, com fé. Vamos defender a nossa pátria com armas na mão. Não temos outra escolha. Vamos defender nossa Ucrânia”, declarou o embaixador, em vídeo publicado nas redes sociais por sua mulher, Fabiana Tronenko.

O toque de recolher anunciado pelo governo não se aplica às duas regiões separatistas de Donetsk e Luhansk que foram reconhecidas como independentes por Putin na segunda-feira e onde os combates eclodiram quando a Rússia apoiou rebeldes separatistas na região em 2014. Kiev também denunciou um ciberataque em grande escala contra sites do governo, do Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia. 

Pressão

De acordo com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, cerca de 80% dos 190 mil soldados russos e forças separatistas da Ucrânia estão mobilizados para o combate, apenas à espera da ordem do presidente Vladimir Putin. O governo americano vem alertando que uma invasão russa é iminente" desde janeiro, mas nesta semana a situação ganhou nova escalada após Putin reconhecer as regiões separatistas  do país como independentes.

O Kremlin disse nesta quarta-feira que líderes separatistas no leste da Ucrânia pediram a ajuda de Putin para repelir a agressão das forças armadas e formações da Ucrânia, o que é negado por Kiev. O Kremlin não disse imediatamente como Putin responderia. O movimento de Putin de reconhecer as regiões em sua totalidade, não apenas as áreas sob controle rebelde, aumentou drasticamente os riscos de uma grande escalada militar.

O governo russo alega, sem evidências, que a Ucrânia está realizando um genocídio contra russos étnicos e representa uma ameaça à segurança da Rússia. 

Mais cedo, o governo ucraniano rejeitou a acusação de Putin de que a Ucrânia poderia desenvolver armas nucleares, uma acusação usada pelo presidente russo para tentar justificar suas ações contra o país. A Ucrânia desistiu de armas nucleares em 1994 em troca de garantias no Memorando de Budapeste da Rússia, Estados Unidos e Reino Unido de que eles não atacariam a Ucrânia.

Para Entender

Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

Kiev também denunciou um ciberataque em grande escala contra sites do governo, do Ministério das Relações Exteriores e do serviço de segurança estatal da Ucrânia. Autoridades ucranianas disseram nesta semana que viram avisos online de que hackers estavam se preparando para lançar grandes ataques contra agências governamentais, bancos e o setor de defesa. A Ucrânia sofreu uma série de ataques cibernéticos que Kiev atribuiu à Rússia. Moscou nega.

Ucrânia pede que cidadãos saiam da Rússia

Também nesta quarta-feira, o governo da ucraniano solicitou que cidadãos não visitem a Rússia e alertou que ucranianos que já estão no país vizinho devem sair imediatamente. Em comunicado, o ministério das Relações Exteriores afirmou que ignorar essas recomendações "complicará significativamente" a proteção adequada de ucranianos em território russo.

"Com a intensificação da agressão russa contra a Ucrânia, que, entre outras coisas, pode levar a restrições significativas à prestação de assistência consular na Federação Russa, o Ministério das Relações Exteriores recomenda que os cidadãos ucranianos se abstenham de quaisquer viagens à Federação Russa. Quem está neste país deve deixar o território imediatamente", informa o comunicado.

Países como Portugal, Brasil, Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Noruega, Dinamarca, Bélgica, Países Baixos, Alemanha, Espanha, Israel, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Iraque, Kuwait e Itália já pediram aos seus cidadãos que deixem a região onde um conflito parece iminente.

No Twitter, o ministro Dmytro Kuleba pediu que o Ocidente imponha sanções mais duras contra o governo de Vladimir Putin.

"Para impedir Putin de mais agressões, pedimos aos parceiros que imponham mais sanções à Rússia agora. Os primeiros passos decisivos foram dados ontem, e estamos gratos por eles. Agora a pressão precisa aumentar para parar Putin. Ataquem sua economia e comparsas. Ataquem mais. Ataquem forte. Ataquem agora", escreveu. /COM NYT 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.