Brendan Hoffman/NYT
Brendan Hoffman/NYT

Ucrânia planeja ser o paraíso das criptomoedas

Governo fraco e corrupção endêmica atraem investimentos em tecnologia

David Segal e Ivan Nechepurenk, The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 05h00

Homem audacioso, de 37 anos, educado em escola britânica, Michael Chobanian é fluente tanto em inglês quanto nos dialetos da Ucrânia, que ele considera um território sem lei e gosta de atravessar com sua Ferrari 612 preta. Ele é fundador da Kuna, uma das primeiras casas de câmbio de criptomoedas do Leste Europeu. Para ele, o país é um lugar maravilhoso para ter um negócio, contanto que você tenha o atrevimento de navegar por um sistema corrupto. 

O principal benefício é um tipo de liberdade que já não é visto em países desenvolvidos há muitos anos. Por exemplo, é possível assassinar alguém e ficar impune. “Na Ucrânia, você pode matar uma pessoa e não ir para a cadeia, se você tiver dinheiro e for conectado”, afirmou. “Se você não for conectado, isso sairá mais caro.” 

O ethos de terra sem lei persegue a Ucrânia há anos, e agora o governo espera sepultá-lo com ajuda das criptomoedas. Em setembro, o Parlamento legalizou e regulou o bitcoin, o primeiro passo de uma campanha para atrair o criptomercado e mudar a imagem do país. 

“A grande ideia é nos tornarmos umas das principais jurisdições do mundo para criptoempresas”, afirmou Alexander Bornyakov, vice-ministro de Transformação Digital, pasta criada há dois anos. “Acreditamos que esta é a nova economia, este é o futuro – e isso estimulará nossa economia.” 

Bornyakov destilou a proposta em um anúncio de 90 segundos, que vende a Ucrânia da mesma maneira que a Apple vende seus dispositivos. Com uma trilha sonora techno, passam imagens de padeiros, executivos, profissionais de saúde e cidadãos comuns, todos felizes da vida, como se estivessem em um tipo de nirvana da tecnologia. “Investimos em startups e criamos condições apropriadas para seu crescimento”, afirma em inglês uma voz feminina. “Nosso objetivo é construir o país mais conveniente do mundo para pessoas e negócios.” 

Bornyakov levou essa mensagem a uma turnê, que incluiu um giro pelo Vale do Silício. O presidente do país, Volodymyr Zelenski, encontrou-se com o diretor da Apple, Tim Cook, e estudantes de Stanford. No entanto, muitos economistas desconfiam das criptomoedas, método preferido para lavagem de dinheiro de terroristas, mafiosos e criminosos que fazem extorsão com ransomware. 

Investimentos

Alguns governos fizeram um cálculo simples. Se investidores injetarem dinheiro nessas empresas, elas poderão ser atraídas para novos locais. E ultimamente eles estão injetando dinheiro de maneira frenética. Financiamentos a blockchains – criptomoedas, games, infraestrutura, NFTs – chegaram a US$ 7 bilhões na primeira metade do ano, segundo a CB Insights.

A Polônia oferece isenções tributárias e apoio financeiro para atrair profissionais de tecnologia. Lituânia, Estônia, Malta, México, Tailândia e Vietnã também estão na disputa. Para a Ucrânia, o objetivo são os novos empregos e o aumento na receita fiscal. 

Com a reputação manchada por escândalos financeiros, a Ucrânia é o segundo país mais pobre da Europa. Ao direcionar seu curso para um sistema financeiro digital, o país quer reescrever essa narrativa. O problema é que muitos empreendedores gostam do sistema atual exatamente como ele é e se afeiçoaram às suas falhas. O que leva a um paradoxo: levar transparência a um grupo de executivos que preferem ser foras da lei.

A Ucrânia já seduziu algumas criptoempresas americanas e britânicas, atraídas por restaurantes e festas ensandecidas. O governo não tem nem ideia do que elas fazem ou de quanto estão ganhando. “Não há regras”, afirmou Chobanian, emanando um tipo raro de orgulho cívico. “Ou melhor, as regras existem, mas podemos quebrá-las. É o equilíbrio perfeito entre anarquia absoluta e as possibilidades.” 

Popularidade

Os ucranianos estão entre os mais ávidos usuários de criptomoedas do mundo, ocupando o quarto lugar no Global Crypto Adoption Index, compilado pela Chainalysis. Aproximadamente US$ 8 bilhões em criptomoedas entram e saem da Ucrânia anualmente, e o volume diário de transações, cerca de US$ 150 milhões, excede o volume de intercâmbios bancários em moeda oficial.

Isso não tem relação com a criptofebre, mas com a falta de opções. Os bancos ucranianos são tão esclerosados que enviar pequenas quantias de dinheiro a outro país é uma corrida de obstáculos. Além disso, a inflação depreciou o valor da grívnia, a moeda local, e a Ucrânia não tem um mercado de ações. Portanto, para quem quiser ver render suas economias, resta o mercado imobiliário ou as criptomoedas. 

Atualmente, US$ 3 milhões em transações são realizadas pela Kuna diariamente, uma ninharia em comparação a gigantes como Binance, mas suficiente para a empresa ser considerada pela Forbes uma das mais valiosas da Ucrânia. Levou anos para a Kuna atingir esse grau de popularidade. Chobanian afirmou que a primeira vez que vendeu criptomoedas parecia que ele estava vendendo drogas. 

Foi em março de 2014. A Kuna era uma empresa de três funcionários, pouco mais do que um website com número de telefone, que postava uma taxa de câmbio. Chobanian estudou o setor bancário e de pagamentos, em 2011, e concluiu que as criptomoedas seriam capazes de transformar o mundo. 

Um cliente ligou querendo comprar US$ 100 em bitcoin. Ambos se encontraram no centro de Kiev. O cara entregou o dinheiro; e Chobanian transmitiu-lhe a quantia em bitcoin pelo celular. “Eu estava apavorado”, disse. “Achava que seria preso imediatamente.” 

Demorou um pouquinho. A polícia bateu em seu apartamento em novembro de 2015 para praticar extorsão. A Kuna, naquele tempo, realizava todos os seus negócios online e tinha se tornado a casa de câmbio preferida de um crescente número de criptoaficionados. Cinco policiais passaram horas revirando o apartamento e confiscaram celulares, computadores e roteadores de Wi-Fi.

“Eles acharam que eu teria dinheiro em casa”, afirmou. Mas não tinha. Ele sabia que deveria se apresentar na delegacia para comprar de volta seu equipamento. Em vez disso, escreveu um ensaio inflamado no computador de seu advogado, que postou no Facebook para descrever seu tormento. “Na manhã seguinte, virei superstar”, afirmou. “Dei entrevista a cinco ou seis talk-shows, incluindo o principal noticiário político do país.” 

Fora da lei

A mentalidade ilegal persiste na Ucrânia, ainda que o governo reprima o tráfico de certificados falsos de vacinação contra covid. Ninguém no país parece se importar muito com o fato de o prefeito de Kiev, o ex-campeão de boxe Vitali Klitschko, viver no andar de cima de uma boate de strip-tease conhecida como ponto de prostituição.

A Ucrânia viveu escândalos demais para esperar um fluxo externo de investimentos. É aí que entram as criptomoedas. O objetivo do governo é dobrar a porcentagem que o setor da tecnologia representa no PIB da Ucrânia, de 5% para 10%, e dobrar o número de pessoas empregadas nessa indústria, para cerca de 500 mil. Até 2025, quando o Banco Mundial projeta que o PIB ucraniano será de US$ 180 bilhões, o setor da tecnologia deverá contribuir com US$ 18 bilhões desse montante. 

Steven Hanke, professor de economia da Universidade Johns Hopkins e conhecido cético em relação ao bitcoin, argumenta que a combinação entre Ucrânia e criptomoedas soa a um fiasco. A maioria dos estudos constata que metade das transações em bitcoin tem propósitos ilegais. Para ele, a Ucrânia não deveria estimular essa indústria. “O país tem corrupção endêmica e é tomado pelo crime organizado”, afirmou. “A Ucrânia apela para atores obscuros porque os atores obscuros gostam de atuar em países como a Ucrânia.” 

Corrupção

O restaurante 11 Mirrors Rooftop tem um bife de costela de US$ 180, fotos de celebridades autografadas nas paredes e uma vista panorâmica de Kiev. Parece uma churrascaria de Las Vegas e pertence ao irmão do prefeito, o também fenômeno no boxe Wladimir Klitschko. É o local ideal para uma boa farra. 

Recentemente, dois membros do pool internacional de criptotalentos ocupavam uma pequena mesa em uma noite. Hartej Sawhney, de New Jersey, é cofundador da Zokyo, firma de criptoauditoria que avalia a segurança de tokens. Shadi Paterson é um britânico que gerencia uma empresa que recruta para criptofirmas. 

Ambos vivem na Ucrânia e irradiam um ar de que encontraram o lugar certo. “Temos múltiplas oportunidades de centuplicar seu dinheiro com criptomoedas”, afirmou Sawhney. “Em seu pico, a internet crescia, em termos de usuários, 63% ao ano. As criptomoedas, desde seu advento, têm crescido a uma taxa de 137%.” 

Como muitos criptoempreendedores, ambos descrevem o país como um tipo de utopia de sentidos. Tudo, do preço dos alimentos aos serviços de motorista, custa um quarto do valor praticado em Manhattan. Drogas como Ketamina e MDMA são abundantes nas raves. Além disso, a cena da paquera parece ser saído de uma temporada do reality show The Bachelor. “Eu gosto da corrupção daqui”, disse Sawhney. “Aqui, jogamos o jogo que somente as elites podem jogar nos EUA. E não preciso de lobistas. Se preciso pagar propina para alguém na fronteira, eu pago. Se preciso pagar políticos, eu pago." /TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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