Ucrânia prepara país para uma votação tensa no domingo

Em Donetsk, barreiras são controladas por separatistas com apoio da polícia, que deveria se subordinar a Kiev

Andrei Netto, Enviado Especial / DONETSK, UCRÂNIA, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2014 | 02h02

O Ministério do Interior da Ucrânia anunciou ontem que lançará uma operação de guerra para garantir a realização das eleições presidenciais de domingo. Mais de 55 mil policiais e 20 mil voluntários participarão do esforço de segurança para conter a ação de grupos separatistas em cidades como Donetsk e Slaviansk, no leste.

Do outro lado da fronteira, na Rússia, tropas seguem mobilizadas, apesar do anúncio de retirada do presidente russo, Vladimir Putin, na segunda-feira.

A medida anunciada por Kiev é considerada necessária porque a tensão segue alta no leste. No aeroporto de Donetsk, agentes de fronteira com insígnias ucranianas controlam o ingresso de jornalistas estrangeiros, fichando-os. Nas ruas, a vida cotidiana é interrompida por protestos pró-Ucrânia e pró-Rússia, sempre com mobilização de milícias do lado oposto.

Na terça-feira, um comboio de carros de ucranianos favoráveis à união do país foi interrompido por grupos de homens mascarados e armados com bastões que ameaçavam os participantes e depredavam os veículos. "A cidade parece normal, mas ninguém sabe o que vai acontecer na Ucrânia e em Donetsk no domingo e nas próximas semanas", advertiu o comerciário Pavel Borzilov, que não sabia ainda se votaria.

Parte da incerteza dos eleitores se dá pelo clima de insegurança entre os moradores. Pelas estradas e avenidas limítrofes do município, espalham-se barreiras, a maior parte de separatistas, mas também de forças pró-Kiev. Ontem, o Estado flagrou a presença de um carro de polícia ajudando na patrulha de um posto de controle pró-Rússia vigiado por homens armados, dois deles ex-agentes das Forças Especiais do Exército ucraniano.

Para conter a ação dos ativistas pró-Rússia, o ministro do Interior, Arsen Avakov, anunciou a mobilização de 75 mil agentes, incluindo milicianos sem autoridade legal convocados para reforçar as forças. O objetivo, segundo ele, é garantir que ocorram as eleições, as primeiras desde a deposição do presidente eleito, Viktor Yanukovich, em fevereiro.

Em 11 de maio, os separatistas realizaram um referendo, a partir do qual decretaram a independência unilateral da República Popular de Donetsk. Quatro dias antes, a Rússia chegou a pedir aos organizadores que adiassem a votação.

Na terça-feira, Aleksandr Borodai, "eleito" líder interino da República de Donetsk, reafirmou que seu grupo não permitirá a votação. "Não haverá nenhuma eleição presidencial no território de nossa república", garantiu, definindo a votação como "um atentado" de Kiev.

Nesse clima de cerco, ameaças e instabilidade, nenhum dos principais candidatos à presidência da Ucrânia esteve em Donetsk ou nas regiões do leste para fazer campanha - situação que afasta ainda mais a população local das eleições. Cartazes espalhados pelas ruas são apenas de políticos do Partido das Regiões - de Yanukovich -, favoráveis à bandeira separatista.

Nas ruas da cidade, o candidato Petro Poroshenko, empresário bilionário e ex-ministro do presidente deposto, é considerado um oligarca mais interessado em promover seus interesses do que a união do país, embora tenha como principal bandeira a promessa de encerrar a crise em três meses.

Com 53,2% das intenções de voto, Poroshenko é franco favorito contra a ex-primeiro-ministra Yulia Tymoshenko, libertada da prisão após a queda de Yanukovich. Ela tem 10% da preferência dos eleitores.

Completam a lista o banqueiro e deputado Serhiy Tihipko, ex-ministro da Economia e ex-chefe de campanha de Yanukovich, que teria 8,8% dos votos, e Mykhailo Dobkin, ex-governador de Kharkiv e representante do Partido das Regiões, pró-Rússia, com 5%. Se a eleição não for definida no domingo, um segundo turno será realizado no dia 15.

Militares. A tensão política e militar segue no interior do país e também do outro lado da fronteira, onde tropas da Rússia continuavam estacionadas. Ontem, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) informou não ter constatado "nenhuma mudança na fronteira", apesar da ordem de retirada do presidente da russo.

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