Carlos Barria/Reuters
Carlos Barria/Reuters

Ucrânia reabre investigação envolvendo filho de Joe Biden

Caso está no centro do escândalo que pode levar a um processo de impeachment do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 10h16

O promotor-geral da Ucrânia disse nesta sexta-feira, 4, que vai "analisar em detalhes vários casos importantes que foram arquivados" por seus antecessores, entre eles o caso criminal envolvendo o dono da empresa de gás natural Burisma Holdings, que empregava o filho do ex-vice-presidente Joe Biden.

Ruslan Ryaboshapka disse que pretendia rever 15 casos no total e mencionou várias investigações de alto nível que supostamente envolvem casos de corrupção de milionários ucranianos, incluindo o proprietário da Burisma Holdings. O filho de Joe Biden, Hunter Biden, trabalhou no conselho da empresa de gás natural até o início deste ano.

A empresa Burisma Holdings está no centro do escândalo que levou à abertura pelos democratas na Câmara da investigação para um possível processo de impeachment dos Estados Unidos, Donald Trump .

Em uma ligação para o presidente da UcrâniaVolodmir Zelenski, em junho, Trump pressionou para que eles encontrassem informações que pudessem prejudicar Joe Biden, seu provável adversário nas eleições presidenciais americanas em 2020.

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O pedido vai alimentar as teorias de que Hunter Biden estaria envolvido em casos de corrupção enquanto seu pai era vice-presidente de Barack Obama.

A informação também levanta questões sobre se a Ucrânia estava, de fato, se curvando à pressão pública e privada do presidente dos Estados Unidos, que condicionou o envio de US$ 300 milhões de dólares em ajuda à investigações sobre a relação dos Biden na Ucrânia.

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O promotor-geral ucraniano disse que “nenhuma autoridade estrangeira ou doméstica tentou influenciar suas decisões” em processos criminais específicos, ou em relação ao caso dos Bidens e da Burisma.

Ryaboshapka disse a jornalistas em um briefing em Kiev na sexta-feira: “O Ministério Público está além da política. Estamos conduzindo uma auditoria de todos os casos, incluindo aqueles que foram investigados pela liderança anterior do escritório do promotor”. Se as leis forem violadas, ele acrescentou: "Vamos reagir de acordo".

Os repetidos pedidos públicos de Trump para que o governo ucraniano investigue casos que possam atingir seu provável oponente nas eleições do próximo ano são centrais para a Câmara dos deputados formular um inquérito de impeachment comandado pela democrata Nancy Pelosi.

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A investigação está examinando se Trump traiu seu juramento de posse e ameaçou a segurança dos Estados Unidos buscando a ajuda de um país estrangeiro para manchar um rival político. 

Trump negou vigorosamente qualquer coisa errada, chamando seu telefonema para o presidente ucraniano de “um favor” e de "perfeito".

Nenhuma evidência de irregularidade de Joe Biden ou de seu filho surgiu nas investigações anteriores, e Hunter Biden negou as acusações. 

Donald Trump no entanto tem dobrado a sua aposta no caso, e instou a China a investigar os Bidens, acusando os chineses de gastar US$ 1,5 bilhão com Hunter Biden para influenciar seu pai e obter acordos comerciais favoráveis aos chineses  ​​com os Estados Unidos.

Na ligação, Zelenski sugeriu que ele ajudaria na investigação da empresa, segundo a transcrição da conversa divulgada pela Casa Branca. 

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​O presidente ucraniano disse que em breve seria nomeado um novo promotor geral que seria "100% ligado a mim" e "investigaria a situação".

Ryaboshapka não disse quanto tempo sua auditoria nesses casos duraria. Segundo o Ministério Público, a revisão “é necessária antes que uma decisão sobre qualquer outra ação possa ser tomada”.

Acusações contra o filho de Joe Biden

Como pano de fundo da história, os argumentos referem-se à viagem de Biden à Ucrânia em março de 2016, ainda como vice-presidente do governo de Barack Obama. Na época, havia uma mobilização internacional, liderada pelos EUA e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para que os escândalos de corrupção no país fossem investigados com mais afinco.

O então procurador ucraniano, Viktor Shokin, era acusado de bloquear investigações envolvendo corrupção e lavagem de dinheiro, sob o governo do ex-presidente Viktor Yanukovych, deposto em 2014 e forçado a sair do país, em parte por causa dos escândalos de corrupção, além do seu vínculo com a Rússia.

Na época, o Reino Unido pressionava pela colaboração das autoridades ucranianas para investigar a maior empresa de gás natural do país, a Burisma, e os indícios de corrupção e lavagem de dinheiro de seu presidente, Mykola Zlochevsky, já que ele detinha US$ 23 milhões em um banco britânico. Após ter sido congelado pelo governo britânico, o valor foi transferido para uma conta em Chipre, segundo o site Bloomberg

Foi neste contexto, em maio de 2014, que o advogado Hunter Biden, filho mais novo de Joe Biden, aceitou o cargo no conselho da Burisma, ganhando um salário de até US$ 50 mil mensais. Na época de sua contratação, a empresa afirmou que ele estaria responsável pelo “núcleo legal” da Burisma, sem especificar suas funções. Ao jornal The New York Times, em maio de 2019, ele negou tais especificidades.

Ainda não há evidências de que Hunter tenha se envolvido em algum momento nos escândalos de corrupção da empresa. Nesta quinta-feira, 26, o procurador que assumiu após a saída de Shokin, Yuri Lutsenko, reforçou que não havia indícios de envolvimento de Hunter.

Porém, houve críticas à época na questão de conflito de interesses, já que seu pai começou a liderar um movimento para tirar o então procurador ucraniano, acusado de não investigar a própria empresa onde Hunter trabalhava.Sob uma iniciativa da Embaixada dos EUA na Ucrânia, o ex-vice presidente americano viajou ao país em 2016 para pressionar pela saída de Shokin, o que ocorreu pouco tempo depois, sob a bandeira anti-corrupção.

Agora, Trump e seus aliados afirmam que a conduta de Shokin sempre foi correta, e que Biden na verdade teria interferido para que o procurador não investigasse a empresa onde seu filho trabalhava. Porém, ele era pressionado exatamente por fazer o oposto.

 Uma fala específica de Biden em um evento em 2018, onde ele comemora a saída de Shokin e atribui a conquista a si, também tem sido utilizada para justificar que o ex-vice presidente teria agido em causa própria. Ele acrescenta, ao fim, que “colocaram no lugar alguém que era sólido na época”.

A negociação feita por Biden envolvia o empréstimo de US$ 1 bilhão para a Ucrânia, que só seria pago caso Shokin fosse afastado do caso, como revelou o americano na mesma ocasião. Em comparação, segundo o jornal The New York TimesTrump mandou congelar US$ 391 milhões em ajuda à Ucrânia em 2019, dias antes de falar por telefone com o presidente ucraniano sobre Biden. / NYT, e AFP

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