Ucrânia vive final de semana violento

A crise política na Ucrânia se agravou nos últimos dias, com o país vivendo o mais violento final de semana desde a queda do presidente Viktor Yanukovich, em fevereiro. Os confrontos entre as tropas do governo interino estabelecido em Kiev e os insurgentes pró-Rússia deixaram ao menos 44 mortos e dezenas de feridos. A atuação dos separatistas espalhou-se pelo país e começaram a ocorrer conflitos na região sul do território, na cidade de Odessa, a terceira mais populosa. Em meio à escalada das tensões, as potências ocidentais e a Rússia continuam a trocar farpas, sem chegar a um acordo efetivo para buscar a paz.

MATEUS FAGUNDES, Agência Estado

05 Maio 2014 | 13h29

No último dos confrontos, nesta segunda-feira, pelo menos quatro oficiais morreram e 30 ficaram feridos na cidade de Sloviansk, o centro da insurgência contra Kiev, segundo o governo interino. Um porta-voz das milícias pró-Rússia na cidade afirmou que algumas pessoas morreram ou outras ficaram feridas nos confrontos, mas não especificou o número de vítimas. Ambos os lados indicaram que os embates entre militares e rebeldes estão ocorrendo em vários locais da cidade. Além disso, um helicóptero ucraniano foi abatido, mas ninguém se feriu.

Enquanto as tropas do governo se esforçam para abafar a insurgência no leste do país, a atuação dos pró-russos começa a se espalhar para outras regiões do território. Rebeldes que reivindicam mais autonomia para as regiões ucranianas e até mesmo a anexação à Rússia passaram a fazer manifestações em Odessa, no sul da Ucrânia. A cidade é a mais importante entre a Península da Crimeia e a região separatista de Transdnístria, na Moldávia, onde Moscou possui um contingente militar.

No domingo, centenas de manifestantes pró-Rússia protestaram em Odessa contra a polícia e conseguiram a libertação de 67 pessoas que foram presas após os confrontos de sexta-feira, que deixaram mais de 40 mortos. Dessas vítimas, 31, todos insurgentes, morreram em um incêndio que atingiu o prédio da União de Sindicatos local.

Como consequência, o premiê interino ucraniano, Arseniy Yatsenyuk, assumiu a responsabilidade por as forças de segurança do país não terem evitado a onda de violência dos últimos dias. Na quarta-feira passada, o presidente interino, Oleksandr Turchynov, já havia admitido que o país não era capaz de controlar a insurgência. Turchynov também havia dito que o objetivo do governo era evitar que essa "agitação separatista" se espalhasse para outros territórios e regiões.

As tropas governistas agora atuam em dois principais pontos - no leste, em Sloviansk, e no sul, em Odessa. A perda do controle de Odessa e de partes do leste ucraniano deixaria o país sem acesso ao Mar Negro. A Rússia já tomou uma parte significativa da costa ucraniana do Mar Negro quando anexou a península da Crimeia.

Em uma tentativa de frear a atuação dos rebeldes e fechar uma importante rota por onde forças russas poderiam entrar no território ucraniano, o governo da Ucrânia fechou temporariamente hoje 27 postos de controle marítimos e aéreos na fronteira com a República Autônoma da Crimeia, segundo informações da agência de notícias russa Interfax.

Ocidente versus Rússia

Em meio aos confrontos e à aparente incapacidade política do governo interino de Kiev, os aliados do Ocidente tentam afinar o discurso contra a Rússia, a quem acusam de estimular a atuação dos rebeldes. O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, disse no sábado que o governo de Vladimir Putin deve parar de dar apoio aos separatistas no leste da Ucrânia e ajudar a retirá-los dos prédios ocupados do governo.

Na sexta-feira, o presidente dos EUA, Barack Obama, e a chanceler alemã, Angela Merkel, ameaçaram endurecer as sanções contra a Rússia caso Vladimir Putin não mude rapidamente suas atitudes. A Alemanha está pressionando por uma segunda rodada de negociações diplomáticas em Genebra em um esforço para conter a violência na Ucrânia.

Por outro lado, o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, acusou o governo interino de Kiev de causar uma "guerra fratricida" e alertou que a atuação das forças de segurança ucranianas podem causar "consequências catastróficas" para o país.

Lavrov disse ainda que é importante que a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) esteja envolvida na diminuição das tensões, garantindo um diálogo na Ucrânia. Porém, os rebeldes ucranianos se recusam ao diálogo com os observadores internacionais, tendo mantido inclusive refém um grupo de observadores alemães da OSCE por uma semana.

Outros líderes do governo Putin questionam a legitimidade do governo interino estabelecido em Kiev. O porta-voz do Kremlin chamou na sexta-feira a convocação de eleições presidenciais para o dia 25 de maio na Ucrânia de "absurda". Moscou apoiava o presidente deposto em fevereiro Viktor Yanukovich, tendo, inclusive, oferecido a ele asilo político.

Kiev e seus aliados no Ocidente temem que a Rússia tenha planos de controlar regiões da Ucrânia onde parte da população possui vínculos culturais mais estreitos com os russos, especialmente no leste do país. Putin tem reiterado que não pretende enviar tropas a essas regiões, mas destaca que fará isso, se necessário. (com informações da Dow Jones Newswires e da Associated Press)

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