AFP PHOTO / Matthew Mirabelli
AFP PHOTO / Matthew Mirabelli

UE aceita dialogar com Reino Unido sobre acordo comercial, mas endurece exigências

Dentre os pedidos da União Europeia, está o pagamento de dezenas de bilhões de euros e a concessão de direitos de residência a cerca de 3 milhões de cidadãos do bloco que vivem no país

O Estado de S.Paulo

31 de março de 2017 | 16h25

BRUXELAS - A União Europeia (UE) aceitou conversar com o Reino Unido ainda neste ano sobre um pacto de livre comércio futuro, mas deixou claro, em diretrizes de negociação divulgadas nesta sexta-feira, 31, que primeiro Londres precisa concordar com as exigências do bloco quanto aos termos da saída britânica, no processo conhecido como Brexit.

Dentre elas, está o pagamento de dezenas de bilhões de euros e a concessão de direitos de residência a cerca de 3 milhões de cidadãos da UE que vivem no Reino Unido, como mostraram os objetivos de negociação propostos, que foram distribuídos pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, aos 27 parceiros britânicos no bloco.

O documento também estabelece condições rígidas para qualquer período de transição, insistindo que o Reino Unido deve aceitar muitas regras da UE depois de qualquer retirada parcial. Também ficou expresso que o bloco não aceita que Londres descarte uma série de impostos e leis ambientais e trabalhistas se quiser um acordo de livre comércio no futuro.

As diretrizes, que podem ser revistas antes de os 27 líderes aprovarem-nas em uma cúpula no dia 29 de abril, foram entregues dois dias depois de a primeira-ministra britânica, Theresa May, iniciar formalmente a contagem regressiva de dois anos para a saída britânica em uma carta a Tusk, que incluiu o pedido de um início rápido das negociações de um acordo de livre comércio pós-Brexit.

"Depois, e só depois que tivermos feito progresso na retirada, podemos discutir a estrutura de nosso relacionamento futuro", disse Tusk a jornalistas em Malta - uma concessão entre os líderes linha-dura do bloco, que não querem conversar sobre comércio até o acordo completo do Brexit ter sido acertado.

"Iniciar conversas paralelas sobre todos os temas ao mesmo tempo, como sugerido por alguns no Reino Unido, não irá acontecer", afirmou Tusk. Mas ele acrescentou que a UE pode avaliar ainda durante o outono europeu se Londres fez "progresso suficiente" em relação aos termos da separação para então iniciar uma segunda fase das negociações sobre a futura relação comercial.

A União Europeia estima que o Reino Unido pode ficar lhe devendo algo em torno de 60 bilhões de euros quando se separar, embora diga que a cifra real não pode ser calculada até que o país saia de fato do bloco.

Segurança. Donald Tusk também disse que nenhuma das partes nas negociações sobre a saída do Reino Unido da UE quer que a questão da segurança seja usada como uma moeda de troca. Na quinta-feira 30, o governo britânico havia alertado sobre uma cooperação menor se não houver um acordo.

“Nossa cooperação na luta contra o crime e o terrorismo seria enfraquecida" se o Reino Unido deixar a UE sem um novo acordo sobre a relação futura, afirmou May.

As declarações despertaram preocupação entre a comunidade de inteligência europeia, que espera manter o máximo possível de compartilhamento de informações e cooperação após o Brexit. Tusk ressaltou, no entanto, ter certeza que os comentários, que tiveram enorme repercussão, foram mal interpretados.

"Isso precisa ter sido um mal-entendido", disse ele a jornalistas. "Nossos parceiros são sábios e decentes, por isso eu tenho certeza que ninguém está interessado em usar a cooperação de segurança como moeda de troca".

Cinco pessoas morreram e cerca de 40 ficaram feridas em Londres no ataque realizado no dia 22 de março, depois que um terrorista atropelou pedestres e esfaqueou um policial perto do Parlamento, antes de ser morto a tiros pela polícia.

"Especialmente após o ataque terrorista em Londres é preciso ficar claro que o terrorismo é nosso problema comum e segurança é nosso problema comum", disse Tusk. / REUTERS

Veja abaixo: Londres nega chantagem com a UE no tema segurança

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.