UE acusa países-membros de acobertar ação da CIA

Governos e serviços de inteligência da Europa aceitaram e acobertaram os vôos secretos realizados pelos EUA para transportar acusados de terrorismo através do continente europeu, afirmou nesta quarta-feira, 14, o parlamento da União Européia (UE). Os parlamentares da UE aprovaram um relatório final que concluiu um ano de investigações sobre as suspeitas de que a CIA (agência de inteligência americana), secretamente, manteve presos na Europa suspeitos de terrorismo e transportou-os de avião para países onde podem ter sido vítimas de tortura.O texto aprovado pelos legisladores diz que o Parlamento Europeu "condena a rendição (entrega de prisioneiros) extraordinária, considerando-a um instrumento ilegal usado pelos EUA na luta contra o terrorismo"."E condena, ainda, a aceitação e o acobertamento dessa prática pelos serviços secretos e governos de certos países europeus", acrescentou.No debate no plenário da Eurocâmara antes da votação de seu relatório de conclusões, o relator do texto e deputado italiano, Giovanni Fava, explicou que a investigação parlamentar esclareceu "cinco anos de excessos e abusos na luta contra o terrorismo" e demonstrou que "os governos europeus sabiam"."Não se trata de opiniões nem preconceitos, mas de fatos provados e graves", disse Fava. Ele ressaltou que os 21 casos de transferências extraordinárias - detenção e encarceramento extrajudicial de suspeitos de terrorismo - citados no relatório "são só a ponta do iceberg".Governos e serviços de inteligência da Europa teriam aceitado e acobertado vôos secretos americanos para transportar acusados de terrorismo através do continente europeu, afirmou na quarta-feira o Parlamento Europeu."Pessoas inocentes passaram mais de cinco anos em Guantánamo simplesmente porque nenhum governo queria se tornar responsável por sua situação", denunciou."Não podemos olhar para o outro lado, como fizeram os governos europeus", acrescentou Fava, que considerou uma "falácia" o argumento de que as práticas americanas se justificam para prevenir atentados terroristas.RelatórioO texto aprovado pelos legisladores diz que o Parlamento Europeu "condena a rendição (entrega de prisioneiros) extraordinária, considerando-a um instrumento ilegal usado pelos EUA na luta contra o terrorismo.O relatório votado ao término do debate se refere a 1.245 vôos operados pela CIA em aeroportos da União Européia, cita dez casos em que as vítimas foram cidadãos europeus ou residentes na UE e considera "inverossímil" que certos governos do bloco não soubessem das operações."E condena, ainda, a aceitação e o acobertamento, em várias oportunidades e pelos serviços secretos e governos de certos países europeus, dessa prática," acrescentou. Os parlamentares criticaram a Itália, dando apoio às conclusões de um promotor italiano que deseja processar 26 americanos, a maior parte deles supostos agentes da CIA, e seis italianos pela participação deles no seqüestro em 2003, em Milão, de um clérigo muçulmano. Uma emenda defende o direito dos serviços secretos a "trabalhar secretamente" e outra sustenta que a CIA "pode voar livremente por aeroportos europeus se não violar a lei".Os legisladores derrubaram uma emenda sugerida pelo Partido Popular Europeu (conservador) e que afirmava haver poucos indícios de que o governo do então primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, teve conhecimento do seqüestro de Hassan Mustafa Osama Nasr, conhecido como Abu Omar. A votação aconteceu depois de um debate no qual socialistas, liberais, verdes e esquerdistas condenaram a "guerra suja" realizada com a cumplicidade da Europa. Os conservadores, de outro lado, argumentavam que a investigação havia encontrado poucas provas e que havia se alimentado de um certo "antiamericanismo." O representante do grupo Liberal, o espanhol Ignasi Guardans, que qualificou o relatório como "esplêndido", afirmou que as atividades da CIA não teriam sido possíveis sem "a ativa cooperação de certos Governos europeus" e que o texto enviou uma "mensagem" a estes Executivos."Não façam isto em nosso nome, porque não nos representa quando lutam assim contra o terrorismo", disse.Texto atualizado às 16h08.

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