Stephen Crowley/The New York Times
Stephen Crowley/The New York Times

UE e China descartam renegociação do Acordo de Paris após saída dos EUA

Europeus e chineses estão dispostos a preencher 'vácuo' deixado com a saída dos americanos do tratado assinado em 2015

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2017 | 19h45

GENEBRA - Incrédulos, irritados e desafiando a postura dos EUA, líderes europeus e chineses afirmaram nesta quinta-feira, 1.º, que não aceitarão que o Acordo de Paris seja renegociado, como propôs o presidente Donald Trump ao anunciar a saída dos EUA do pacto

Assim que o anúncio foi feito, a chanceler alemã, Angela Merkel, telefonou para Trump para demonstrar sua insatisfação e deixar claro que os europeus não atenderiam ao pedido dos americanos. Ao terminar a chamada, fez ligações para os demais líderes europeus, entre eles o francês Emmanuel Macron, e emitiu uma nota conjunta garantindo que o tratado não será reaberto. 

"Mais do que nunca trabalharemos por políticas globais para salvar nosso planeta", disse o governo de Merkel em uma nota. "Alemanha e França vão promover novas iniciativas para garantir que o acordo seja um sucesso." 

Ao lado da Itália, França e Alemanha afirmaram que não renegociarão o tratado. Para eles, o acordo de 2015 é "irreversível" e "não pode ser renegociado, já que é um instrumento vital para nosso planeta, sociedades e economias". Macron, segundo sua assessoria, também conversou por telefone com Trump para alertar que "nada era negociável no tratado". Em um discurso mais tarde, usou tom irônico e afirmou que a intenção do acordo é "fazer o planeta grande de novo".

As reações à saída dos EUA do acordo continuaram. O governo do Canadá afirmou estar "profundamente decepcionado", enquanto os escandinavos alertaram que a humanidade estava numa "encruzilhada". Para o governo belga, a iniciativa foi um "ato brutal". O Vaticano classificou a decisão de "desastre para todos". 

Nos bastidores da política europeia, a meta é isolar Trump. Num tom desafiador, autoridades europeias insistiram que o acordo será mantido e o "vácuo" deixado pelos EUA será preenchido por novas lideranças globais. "O anúncio de hoje nos uniu e não vai nos enfraquecer", afirmou o comissário da UE para Ação Climática,  Miguel Arias Cañete. "Esse vácuo será preenchido por uma nova liderança ampla e comprometida. A Europa e seus parceiros pelo mundo estão prontos a liderar o caminho. Trabalharemos juntos para enfrentar um dos maiores desafios de nosso tempo", disse.

O Estado apurou que europeus e chineses vão trabalhar para convencer os demais países a mostrar resistência, não abandonar o acordo e demonstrar que Trump está isolado. O que não deseja Bruxelas é que, por uma postura dos americanos, todo o trabalho de uma década seja renegociado. "Decidimos seguir adiante", disse o comissário. 

Para isso, UE e China estão dispostos até mesmo a preencher a parte que caberia aos EUA no financiamento climático e a transição energética.

Essa posição será consolidada num comunicado que vai ser assinado nesta sexta-feira, ao final da cúpula entre Bruxelas e Pequim. "Europa e China consideram a ação climática e a transição para uma energia limpa um imperativo mais importante que nunca", diz o comunicado. As partes também vão se comprometer a "intensificar sua cooperação política, tecnológica, econômica e científica" sobre o assunto. No comunicado, as duas economias devem mostrar como a reforma dos sistemas de energia é uma oportunidade de geração de empregos e investimentos. 

Para o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, seu país "continua comprometido" com o acordo de Paris. Em uma resposta a Trump, ele deixou claro que lutar contra mudanças climáticas é um consenso global. 

Decepção.

A iniciativa diplomática europeia e chinesa teve a aprovação da ONU. Numa declaração, o secretário-geral da entidade, Antonio Guterres, classificou a decisão de Trump de "decepcionante". Mas pediu que os demais governos não abandonassem o tratado. "Trata-se de um acordo essencial para nosso futuro global."

Em Bruxelas, não havia dúvidas de que esse era "um dia triste" para a comunidade internacional. "Um dos principais parceiros virou as costas para a luta contra mudanças climáticas", diz o comunicado da UE. "O Acordo de Paris permite que cada parte construa seu caminho para contribuir aos objetivos de prevenir uma mudança climática perigosa", disse Cañete. "Portanto, existe espaço para que os EUA desenhem seu próprio caminho. 195 países assinaram o acordo, com 195 caminhos diferentes", completou.

Em outros locais da Europa, o tom foi menos diplomático. "É uma questão de confiança e liderança", disse o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani. "A decisão vai afetar os EUA e o planeta", completou. Guy Verhofstadt, adotando um tom irônico, colocou nas redes sociais um informe pelo qual mostrava que a elevação dos níveis dos Oceanos inundará o Havaí. "Faça a América pequena de novo", escreveu.

Na semana passada, na cúpula do G-7, a declaração final não contou com uma referência ao Acordo de Paris, após Trump se recusar a endossar o documento. 

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