Miguel Medina/AFP
Miguel Medina/AFP

UE 'encontra' 29 milhões de doses da vacina da AstraZeneca na Itália e ameaça apreensão

Segundo o jornal italiano 'La Stampa', as doses eram destinadas à Bélgica, mas a fábrica não obteve a autorização da Agência Europeia de Medicamentos, por isso as doses não podem ser entregues a países da UE

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 10h30
Atualizado 24 de março de 2021 | 17h20

ROMA - Uma inspeção da União Europeia identificou um estoque de 29 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca contra a covid-19 em uma fábrica da empresa na Itália, e Bruxelas diz estar preparada para impedir a exportação do produto se não forem destinadas ao uso no bloco, noticiou o Financial Times.

"Realmente houve uma inspeção neste fim de semana na fábrica da Anagni (na Itália) que encontrou 29 milhões de doses, e o destino dessas doses deve ser esclarecido", disse o funcionário na quarta-feira, 24.

Segundo o jornal italiano La Stampa, citando fontes do governo italiano, as doses eram destinadas à Bélgica. O problema é que a fábrica em Halix não obteve a autorização da Agência Europeia de Medicamentos, por isso as doses não podem ser entregues a países da UE, mas podem ser vendidas ao Reino Unido

A fábrica da Anagni em Frosinone, na Itália, é administrada pela empresa americana Catalent, que pega a substância da vacina de outros fornecedores da AstraZeneca e a usa para produzir doses finais da vacina contra o coronavírus.

A França e outros Estados-membros da UE - cujos programas de vacinação contra a covid-19 foram ultrapassados pelos do Reino Unido e dos Estados Unidos - estão furiosos porque as fábricas em toda a Europa têm exportado milhões de doses para mercados estrangeiros enquanto a UE não recebeu doses de outros lugares.

Após a União Europeia subir o tom na última semana contra o Reino Unido, a quem acusa de não agir com "reciprocidade e proporcionalidade" no fornecimento de vacinas contra a covid-19, o bloco europeu decidiu, nesta quarta-feira, 24, reforçar seu controle para a exportação de imunizantes produzidos em seu território. A medida afeta em particular os britânicos. 

"A Europa não quer ser um idiota útil em tudo isso", disse o funcionário francês, insistindo que a UE não tinha como alvo o Reino Unido, mas estaria tentando garantir que a AstraZeneca - que cortou as metas de entrega planejadas - cumprisse seus compromissos com a UE.

"Não temos interesse ou desejo de ter uma polêmica bilateral permanente com o Reino Unido, mas estamos lidando com os fatos", disse o funcionário ao Financial Times. "Milhões de doses foram exportadas para o Reino Unido e nenhuma dose foi exportada na outra direção... A Justiça exige que possamos exigir reciprocidade".

Até agora, as únicas exportações de vacinas bloqueadas pela UE foram 250 mil doses de AstraZeneca da Itália com destino à Austrália. As autoridades disseram repetidamente que não têm problemas com outros produtores, como a Pfizer, que cumpriram seus compromissos com a UE.

No centro da disputa estão sucessivas quebras de prazos para a remessa de vacinas produzidas pela AstraZeneca - de controle sueco e britânico - para a União Europeia. A empresa havia se comprometido com 90 milhões de doses no primeiro trimestre deste ano, mas informou depois que só 40 milhões estariam disponíveis. No fim, acabou entregando apenas 30 milhões, um terço do contratado.

Para o segundo trimestre, o contrato prevê 180 milhões de doses, mas a fabricante deve entregar 70 milhões. A legislação aprovada afetaria não só esse imunizante, mas também aqueles da Pfizer e pela Moderna.

Os britânicos são de longe os maiores beneficiários das exportações do bloco. A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, disse na semana passada que a UE já enviou para o país vizinho cerca de 10 milhões de doses, mas as fábricas britânicas não embarcaram imunizantes para o bloco.

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