UE ignora Cameron e escolhe Juncker para a Comissão Europeia

Premiê britânico diz que escolha vai dificultar as reformas do blocoeuropeu e ameaça com a saída de seu país

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2014 | 02h03

Chefes de Estado e de governo aprovaram ontem, em Bruxelas, na Bélgica, o nome do ex-primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, como novo presidente da Comissão Europeia. Conservador moderado e defensor da "federalização" da Europa - o maior grau de integração -, o luxemburguês dividiu a reunião de líderes políticos, já que o premiê britânico, David Cameron, lutou até o último minuto contra sua designação.

A decisão foi tomada em uma reunião marcada pelo crescente isolamento de Cameron no interior da União Europeia. O resultado da votação não foi divulgado, mas dentre os 28 governantes europeus nenhum era tão enfático contra Juncker quanto o britânico. O anúncio da escolha foi feito pelo atual presidente do Conselho Europeu - espécie de presidente da Europa, Herman Van Rompuy. "A decisão foi tomada. O conselho propõe o nome de Jean-Claude Juncker como próximo presidente da Comissão Europeia", anunciou o belga, pelo Twitter oficial, fazendo uma ponderação: "Sua nomeação deve daqui para a frente ser objetivo de um voto do Parlamento europeu".

Na prática, a escolha de Juncker, de 59 anos, está assegurada, já que foi o Parlamento, por consenso, que indicou o nome do luxemburguês. O ex-premiê é líder do Partido Popular Europeu, de centro-direita, majoritário no legislativo europeu. Logo, a aprovação de seu nome é questão de burocracia. Juncker não deve se pronunciar até assumir a Comissão Europeia, substituindo o diplomata português José Manuel Durão Barroso, que presidiu o órgão nos últimos dez anos.

A definição do nome de Juncker provocou novas críticas, e mais desgaste, ao premiê britânico. Cameron deixou a reunião de líderes condenando a escolha. "Trata-se de um dia sombrio para a Europa. A decisão pode enfraquecer os governos", disse. Cameron não fez questão de mascarar sua insatisfação, nem de ameaçar abandonar o bloco econômico. "Creio que os interesses nacionais britânicos são reformar a União Europeia, organizar um referendo sobre essa reforma e recomendar nossa manutenção no interior de uma união reformada", disse. "Isso teria se tornado mais difícil de obter? Sim."

As queixas de Cameron não encontraram respaldo entre os demais líderes europeus. A chanceler alemã, Angela Merkel, defendeu a adoção de gestos em favor do governo britânico, mas o presidente da França, François Hollande, reiterou a legitimidade da decisão. "Não se trata de uma pessoa, nem de um candidato. A lógica começou com as eleições para o Parlamento", alegou.

A posição do premiê recebeu críticas em Londres do líder do Partido Trabalhista, Ed Miliband, para quem a derrota política foi uma "humilhação total". "Isso reforça a necessidade de uma estratégia europeia que tenha como base alianças mais largas, dentro do interesse nacional", afirmou o trabalhista.

Definido o nome de Juncker, os líderes europeus e o novo presidente da CE começam agora a definir quem substituirá Van Rompuy na presidência do Conselho e que será o novo Alto Representante para Relações Exteriores, cargo hoje ocupado pela britânica Catherine Ashton.

Além da escolha de Juncker, também foi definida na reunião de cúpula em Bruxelas, a flexibilização das normas para o reequilíbrio fiscal dos países do bloco. Beneficiado pela medida, o presidente da França, François Hollande, negou que se trate de uma exceção aberta à França e à Itália.

Matteo Renzi, primeiro-ministro italiano e outro interessado na medida, prometeu continuar o processo de reformas internas, mesmo tendo mais tempo para organizar as contas públicas. "O problema da Itália não é a Europa, mas a Itália", afirmou. "Nós precisamos mudar a cara de nosso país."

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