UE não quer Iraque sob controle militar dos EUA

Os Estados Unidos terão muitas dificuldades para convencer a União Européia (UE) a participar do financiamento da reconstrução do Iraque, se este país for atacado pelos EUA sem o aval das Nações Unidas. Essa é a opinião do comissário Chris Patten, encarregado das relações exteriores da Comissão Européia. A seu ver, não será nada fácil convencer os deputados no Parlamento Europeu de Estrasburgo a aprovar ajudas financeiras importantes para a reconstrução se o Iraque for administrado por três generais americanos, após os Estados Unidos terem liquidado o regime de Saddam Hussein, como prevê o organograma preparado pelo Pentágono.Em tais circunstâncias, os americanos desta vez não devem contar com os europeus, especialmente com os alemães, que não pretendem pagar novamente uma parte da conta, como já ocorreu na Guerra do Golfo de 1991.Chris Patten afirma não ter nenhuma vocação para participar de missões suicidas. A Alemanha já se encontra numa situação econômica difícil, mas é responsável por 25% do orçamento comunitário. Outros países entre os 15 da UE também são contrários, mesmo porque não aprovam a anunciada ofensiva anglo-americana.Hoje, Chris Patten voltou a advertir que será muito difícil contar com a participação da UE se esse trabalho de reconstrução não for feito com supervisão direta das Nações Unidas, e não dos Estados Unidos, como parece estar prevendo a administração americana. Para o britânico Patten, será essencial, após a guerra, que a UE tenha liberdade de manobra para poder dar ajuda independente e imparcial. Patten preconiza uma estrita separação entre a ação militar e as operações de assistência, para preservar o chamado espaço humanitário. Ele considera fundamental que o papel de coordenação da ONU seja rapidamente reconhecido na tarefa de reconstrução do Iraque.Na verdade, a preocupação maior se concentra nos grandes contratos de reconstrução nos setores do abastecimento de água, sistema rodoviário, portos, hospitais, pontes e escolas. Os contratos já estão sendo distribuídos para os grandes grupos americanos. Mesmo os aliados britânicos já começam a protestar, temendo que, mais uma vez, para suas empresas só sobrem migalhas. Essa não seria a primeira vez que isso aconteceria. Na guerra de 1991, os aliados dos americanos ficaram a ver navios quando ocorreu a divisão do espólio.O vazamento na imprensa, pelo Wall Street Journal, dos nomes dos cinco grandes grupos americanos que poderão ser os principais beneficiados com esses contratos despertou os empresários britânicos, que já procuraram Tony Blair para protestar. Os grupos americanos citados são Bechtel Group, Fluor Group, Kellogg Brown, Louis Berger Group e Parsons Corp. O grupo Kellogg Brown, por exemplo, teria sido escolhido para combater os eventuais incêndios em poços de petróleo. De sua direção participou, até o ano 2000, o atual vice-presidente americano, Dick Cheney.Como se vê, esses grupos não estão sendo selecionados para prestar assistência humanitária ao Iraque e sua população, depois do festival de bombas que cairá sobre Bagdá e outras cidades iraquianas. Seus interesses são outros, principalmente petrolíferos.

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