Antonio Bat/EFE
Antonio Bat/EFE

UE pode barrar viajantes de Brasil, EUA e Rússia após reabertura, diz jornal

Medida seria duro golpe ao prestígio dos EUA, que têm mais de 2,3 milhões de casos e mais de 120 mil mortos, mais do que qualquer outro país

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2020 | 17h40

BRUXELAS - Ao reabrir suas fronteiras e economias após dois meses de restrições pelo coronavírus, países da União Europeia podem impedir a entrada de americanos porque seu governo não conseguiu controlar a doença em seu território, segundo o jornal americano New York Times. O jornal alega ter tido acesso a rascunhos de lista de viajantes aceitáveis que estão sendo discutidas nesse momento no bloco. 

A medida colocaria, além dos americanos, visitantes russos e brasileiros como indesejáveis e, de acordo com o jornal, seria um duro golpe ao prestígio dos EUA, que têm mais de 2,3 milhões de casos e mais de 120 mil mortos, mais do que qualquer outro país. 

Segundo o jornal americano, atualmente, os países europeus estão discutindo duas listas potenciais de visitantes aceitáveis, com base em como as nações estão se saindo com a pandemia de coronavírus. Ambas incluem a China, bem como Uganda, Cuba e Vietnã

Viajantes dos Estados Unidos e do restante do mundo foram impedidos de visitar a União Europeia - com poucas exceções principalmente para repatriações ou "viagens essenciais" - desde meados de março. Agora, uma decisão final sobre a reabertura das fronteiras é esperada no início da próxima semana, antes de sua efetivação, em 1º de julho.

A proibição aos americanos por Bruxelas reflete parcialmente a mudança de padrão da pandemia. Em março, quando a Europa foi o epicentro, Trump enfureceu os líderes europeus quando proibiu cidadãos da maioria dos países da União Europeia de viajarem para os EUA. Trump justificou a medida necessária para proteger o país, que na época tinha cerca de 1.100 casos de coronavírus e 38 mortes.

No fim de maio e início de junho, Trump disse que a Europa estava "progredindo" e sugeriu que algumas restrições seriam levantadas em breve, mas nada aconteceu desde então. Hoje, a Europa restringiu a pandemia em grande parte de seu território, enquanto os Estados Unidos, mais afetados, viram surgir mais e mais surtos de infecção.

A proibição de entrada a viajantes americanos na União Europeia teria implicações econômicas, culturais e geopolíticas significativas, como destaca o jornal. Milhões de turistas americanos visitam a Europa todo verão. As viagens de negócios são comuns, graças aos enormes laços econômicos entre os Estados Unidos e a União Europeia.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

Os rascunhos das listas foram compartilhados com o New York Times por um funcionário envolvido nas negociações e confirmado por outro funcionário também envolvido nas negociações. Dois funcionários adicionais da União Europeia confirmaram o conteúdo das listas e os detalhes das negociações para moldá-las e finalizá-las. 

Todos os funcionários deram as informações sob condição de anonimato, por se tratar de uma questão politicamente delicada.

A criação de uma lista comum de estrangeiros que possam entrar no bloco faz parte de um esforço da União Europeia para reabrir totalmente as fronteiras internas entre seus 27 Estados membros. Viagens e comércio livres entre os membros são um princípio central do bloco - que foi bastante interrompido durante a pandemia.

Desde o surto, o bloco sucumbiu às políticas nacionais fragmentadas que resultaram em uma colcha de retalhos incoerente de fronteiras abertas e fechadas.

Algumas fronteiras internas permaneceram praticamente fechadas enquanto outras se abriram. Alguns Estados membros que precisam desesperadamente de turistas correram para aceitar visitantes de países não pertencentes à UE e prometeu testá-los na chegada. Outros tentaram criar zonas fechadas de viagem entre certos países, chamadas de "bolhas" ou "corredores".

O jornal destaca que a compilação dessas listas seguras expõe a tarefa complicada de remover medidas relacionadas a pandemias e unificar a abordagem do bloco. Mas a urgência de se restaurar a harmonia interna da UE e abrir-se lentamente ao mundo é fundamental, mesmo que ameace brigas com aliados próximos, como os Estados Unidos, que parecem excluídos, pelo menos inicialmente. 

O New York Times afirma que o presidente Trump, assim como os colegas russo e brasileiro, Vladimir Putin e Jair Bolsonaro, seguiu o que os críticos chamam de um caminho similar em sua resposta à pandemia que deixou os três países em uma situação igualmente ruim: foram desdenhosos no início da crise, demoraram a responder às indicações científicas e viram um boom de casos domésticos, enquanto outras partes do mundo, principalmente na Europa e na Ásia, estavam lentamente conseguindo controlar seus surtos.

Países das listas preliminares da UE foram selecionados com base em uma combinação de critérios epidemiológicos. A referência é o número médio na UE de novas infecções - nos últimos 14 dias - por 100 mil pessoas, que é atualmente de 16. O número comparável para os Estados Unidos é 107, enquanto o Brasil é de 190 e a Rússia, de 80, de acordo com o levantamento do New York Times.

Depois que os diplomatas concordarem com uma lista final, ela será apresentada como uma recomendação aos Estados membros antes de 1º de julho. Eles não serão forçados a adotá-la, mas as autoridades europeias alertam que o não cumprimento por um dos membros pode levar à reintrodução do controle de fronteiras dentro do bloco. 

Autoridades europeias disseram que a lista seria revisada a cada duas semanas para refletir novas realidades em todo o mundo, à medida que as nações veem o vírus fluir. /COM INFORMAÇÕES DO NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.