UE prepara um serviço diplomático unificado

Bloco dá primeiro passo para uma política externa comum e cria um departamento de 7 mil funcionários que custará US$ 9 bilhões ao ano

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

A corte do rei Luis XIV ficaria com inveja do tamanho do corpo diplomático que a Europa se prepara para criar. O primeiro serviço europeu de diplomacia está sendo estabelecido por Bruxelas para unificar sua política externa.

Enquanto o serviço diplomático britânico está cortando 40% de seu orçamento e outros governos enfrentam dificuldades econômicas, a UE anuncia que a nova diplomacia terá um orçamento de US$ 9 bilhões por ano, além de 7 mil funcionários - os EUA gastam anualmente US$ 16,4 bilhões com cerca de 12 mil funcionários.

A nova máquina será lançada em setembro, mas já é alvo de ataques. O sonho da política externa comum sempre mexeu com o humor de muitos países zelosos em abrir mão de sua soberania, mesmo após o fim das barreiras internas e da moeda única.

O Tratado de Lisboa foi um grande passo e, rapidamente, a cúpula da UE já começou a entrevistar candidatos para postos-chave, como embaixador nos EUA, China, Brasil e Japão. As nomeações devem ser anunciadas até setembro.

Se a máquina diplomática está sendo criada, seu conteúdo é frágil. França e Grã-Bretanha divergem da Espanha em relação a como tratar Cuba. Os países do Leste Europeu tem uma relação com os EUA que incomoda alguns tradicionais membros da UE. O Oriente Médio é alvo de várias visões dentro da Europa.

Henry Kissinger, nos anos 70, questionava para quem deveria ligar quando precisasse falar com a Europa. Hoje, o presidente Barack Obama cancelou sua participação em uma cúpula com os europeus alegando que a estrutura de poder dentro do bloco ainda não era clara e a reunião com todos os 27 países seria uma perda de tempo.

Por enquanto, há dois presidentes, José Manuel Barroso e Herman Rompuy, 27 chanceleres e uma chanceler continental, a baronesa Catherine Ashton de Upholland - sem contar os países que assumem a presidência do bloco a cada seis meses.

Os 27 membros da UE já contam com suas respectivas embaixadas pelo mundo, enquanto a Comissão Europeia tem suas delegações. Agora, com a política externa comum exigirá também um corpo diplomático próprio.

Ao criar o serviço de diplomacia continental, Bruxelas garantiu que a estrutura não custaria um centavo a mais do contribuinte, já incomodado com a burocracia do bloco. A promessa era a de que os funcionários viriam da própria estrutura da Comissão Europeia e de diplomatas cedidos pelos governos.

Mal começaram os trabalhos e a chanceler já disse que precisará de um orçamento extra de 55 milhões este ano para pagar funcionários, o que irritou o Comitê de Orçamento do Parlamento Europeu. "Só Papai Noel acreditaria que esse serviço não custaria mais dinheiro", afirmou Inge Grassle, deputada alemã. Ela lembra que, apenas na criação do novo serviço diplomático, foram gastos 65 milhões com a construção dos novos escritórios da UE em Adis-Abeba, na Etiópia, sede da União Africana.

Os custos vão além. Cada um dos 736 deputados europeus terão 20 mil a mais por ano para acompanharem os trabalhos da diplomacia europeia. O novo Departamento de Estado Europeu terá 136 embaixadas da UE pelo mundo, muitas das quais já existem na forma de delegações da Comissão Europeia.

No orçamento de 7 bilhões estão não só os custos com funcionários, mas os gastos com operações de paz, contribuições para entidades internacionais e programas de cooperação. "Estamos conscientes do clima econômico na Europa e da pressão de governos e cidadãos. Não queremos criar um peso a mais para os contribuintes", garantiu a chanceler.

Os eurodeputados, porém, insistem em questionar os custos. Catherine tem um salário de 321 mil por ano. O novo embaixador em Washington ganhará 188 mil por ano. O do Brasil, 147 mil. Além dos custos, os governos nacionais devem começar uma briga de foice para garantir que possam ocupar postos estratégicos.

Para setembro, o bloco promete entrar em um duro debate sobre o orçamento geral para 2011. A proposta da Comissão Europeia é de gastos de 113 bilhões, 6% a mais que em 2010.

PARA ENTENDER

Tratado de Lisboa mudou corpo da UE

Desde 1.º de janeiro, a União Europeia (UE) tem três presidentes: a Bélgica, que assumiu formalmente o cargo rotativo até o fim do ano, o presidente permanente, o belga Herman van Rompuy, e o presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Barroso. Isto sem contar a nova ministra das Relações Exteriores, Catherine Ashton. A complicada arquitetura foi fruto do Tratado de Lisboa, que dá uma maior institucionalização para a Europa, mas não retira os governos nacionais da cena.

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