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UE reduz suas ambições

Riga é a capital da Letônia, um desses países bálticos que sofreram milhares de mortes no tempo de Stalin e hoje, livres, desconfiam de seu vizinho oriental. É lógico, portanto, que se realize ali uma cúpula seis anos depois que a União Europeia lançou sua ideia ambiciosa e nebulosa de uma "parceria oriental". A Rússia não foi convidada para essa cúpula, pois há anos ela procura justamente impedir que ex-repúblicas soviéticas caiam nas mãos da Europa e do mundo atlântico, obtendo um lugar na UE.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2015 | 02h03

Recordando: foi essa perspectiva de ver a Ucrânia ingressar na UE que pôs Kiev em polvorosa, há um ano e meio, num momento em que Bruxelas sonhava ver se aninhar sob suas asas os seis antigos países soviéticos hoje livres: Ucrânia, Bielo-Rússia, Azerbaijão, Armênia, Geórgia e Moldávia.

Será que veremos hoje se reproduzir a aventura infernal que o desejo ucraniano de ingressar na Europa desencadeou há dois anos? A Bielo-Rússia, após ter cobiçado Bruxelas, distancia-se novamente da Europa. O Azerbaijão também. E a Armênia pende para o lado da Rússia e sua "união eurasiana".

Restam, como eventuais candidatos à UE, Ucrânia, Geórgia e Moldávia. Mas a Ucrânia recorda seus ferimentos que renascem a cada manhã. Os outros dois - Moldávia e Geórgia - estão dilacerados entre seu desejo da Europa, a guerra latente com Moscou e as impaciências de suas minorias russas.

Além disso, a Europa reduziu suas ambições. O choque da Ucrânia a fez compreender que há desgastes em ir contra os desejos da Rússia e das minorias russas dos países em questão.

Foi a chanceler alemã, Angela Merkel, a encarregada de jogar um balde de água fria nas ilusões da Geórgia e dos outros. "Não se deve suscitar falsas esperanças. A 'parceria oriental' não é um instrumento da política de expansão da UE". E quando Merkel fala...

Com as manifestações pró-UE na capital ucraniana, Kiev, a anexação da Crimeia pela Rússia, a guerra no leste da Ucrânia, a Europa se arrependeu. Aliás, a maior preocupação de Merkel é salvar a trégua entre a Ucrânia e os dissidentes ucranianos assinada em Minsk.

Os deuses da geopolítica estão muito ativos porque, enquanto um grão de razão toma a cabeça desmiolada dos europeus, Moscou age com "punhos de veludo". Os dirigentes separatistas ucranianos garantem que desistiram de criar uma "nova Rússia", que deveria reunir Donetsk e Luhansk. Putin repete a Merkel e ao secretário de Estado americano, John Kerry, que não deseja anexar Donetsk. Ele afirma seu desejo de um acerto pacífico.

Outra mudança: a Ucrânia "europeia" começa a irritar a Europa. O país está à deriva. Sua economia contraiu 18% nos últimos 12 meses. Kiev não consegue fazer as reformas cobradas por Bruxelas. Os europeus, que tentam salvar a Grécia, não têm vontade de salvar também um país enorme como a Ucrânia. Conclusão: Putin talvez seja desagradável, mas é um fino diplomata. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris 

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